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Análise do estilo de Van Gogh

© Texto de João Werner

Temática

O tema principal de seus primeiros trabalhos é o camponês. Entre 1881 e 1885, quando se iniciou na pintura, Van Gogh pintou uma série de desenhos e quadros, cujo máximo momento foi Os comedores de batata. As preocupações moralistas e religiosas do autor traduziram-se no profundo amor que sentia pelas personagens humildes e desamparadas dos camponeses holandeses. Desde que havia tentado ser pregador religioso nas minas de carvão do Borinage, a miséria destes havia impregnado sua imaginação e senso de solidariedade. As telas são tecnicamente soturnas, de cores escuras, marrons e preto, dentro de uma tendência realista social.

Sua temática posterior à chegada em Paris (1886) é totalmente determinada pelos seus objetivos estéticos e técnicos. Se ele vê na cor a razão maior de sua expressão, verdadeiro veículo simbólico da espiritualidade, Van Gogh vai pintar, por exemplo, girassóis, onde a explosão do amarelo parece um retrato exato de seu turbulento universo espiritual. Se a pincelada redemoinhante é sua marca, serão os ciprestes e os trigais, por exemplo, a expressão maior na natureza de seu ritmo gestual que ascende como chama.

O interesse pelo ser humano nunca o abandonou. Uma grande série de retratos, alguns deles verdadeiras obras-primas, formam uma galeria de penetrante desvelar da alma alheia. Sem condescender com o retratado, nem tampouco aviltá-lo, Van Gogh revela com carinho os desvãos da alma, por onde tantos se deixam levar.

Assim, também, deve-se reservar atenção cuidadosa aos seus vários auto-retratos. Como o outro grande mestre holandês, Rembrandt, Van Gogh vê no auto-retrato uma forma de auto-conhecimento. Inúmeros, eles descrevem seus variados sentimentos e momentos de vida. São um dos conjuntos de pinturas mais angustiantes da história da arte. Um ponto é particularmente intenso: os olhos, penetrantes, ao final da vida descrentes, não nos olham, mas atravessam pelo observador em busca do espírito, da compaixão. (Na ilustração à esquerda, Auto-retrato, 1886-7, óleo sobre cartão, Art Institute, Chicago).

A pincelada

Van Gogh intensificou a marca do pincel como recurso expressivo. O gesto criador foi valorizado principalmente pelos românticos (Delacroix, por exemplo), os quais evitavam o acabamento polido das superfícies das suas pinturas. Van Gogh recebeu esta qualificação técnica através da arte impressionista, especialmente o uso pontilhista da cor de Seurat. Em seus últimos anos, Van Gogh chegou a empregar a tinta diretamente do tubo sobre a superfície da tela, o que ocasionava um espesso impaste de tinta.

Aplicadas em cores puras, as pinceladas são justapostas lado a lado, em uma trama que, ao final de sua vida, ganha um ritmo alucinante. Como verdadeiros jorros de tinta espatulada, as pinceladas eletrizam a superfície da tela, movimentam os ciprestes, atormentam os auto-retratos. Uma imaginação exasperada e uma urgência de sentimento move sua mão, o que atesta a imensa quantidade de quadros produzidos em pouco tempo. A superfície rude resultante de tal técnica é, inesperadamente, o suporte ideal para uma alma tão apaixonada. Ao invés de grosseira, sua pincelada éextática. (Na ilustração à direita, Estrada com cipreste e estrela, 1890, óleo sobre tela, 92x73 cm, Rijksmuseum Kröller-Müller, Otterlo, onde são visíveis as marcas das pinceladas de Van Gogh)

A cor

Cores demais vivenciamos em nosso dia a dia. Qualquer loja de material artístico vende tubos e tubos dos mais variados matizes. Mas a cor de Van Gogh é mais do que esta variedade caótica de matizes. Olhando suas pinturas, parece-nos que a profusão é a maior virtude. Ledo engano. Lendo seus escritos, especialmente as cartas que deixou para o irmão, Theo, aprendemos que acreditava na ressonância profunda de cada matiz na alma humana. Para Van Gogh, cada cor era o símbolo de uma paixão. (Na ilustração à esquerda, Quatorze girassóis em um vaso, 1888, óleo sobre tela, 93x73 cm, National Gallery, Londres Exemplo da intensidade do uso da cor por Van Gogh).

Como o interior do Café noturno, as personagens são descritas não pela sua aparência exterior, mas pelos contrastes de cores complementares que habitam seu universo interior, subjetivo. Assim o par vermelho e verde das paredes e do teto, intensificados pelo amarelo do piso, não permite a entrada de ar neste ambiente de perdição. Tudo está em suspenso, até mesmo a luz parece ter dificuldades em disseminar-se, ficando imóvel, próxima à lâmpada a gás.

Parece que o amarelo tinha a sua preferência. Predomina o amarelo na maioria de suas grandes obras, assim como é amarelo o trigal que pintou nos últimos dias antes de suicidar-se. O Trigal com corvos é uma síntese de amarelo sobre o qual pairam os urubus pretos em revoada, preto que é a ausência da cor, ausência da luz e da vida.

Os comedores de batata

Van Gogh pinta esta tela em Nuenen, onde sua família morou por algum tempo. Pretendia retratar a dura realidade da vida camponesa, sua humildade e dignidade. Van Gogh realizou diversos estudos preparatórios para esta obra, não só da composição mas, também, dos personagens individualizados. Utiliza-se de poucas cores, variadas nos contrastes de claro e escuro. A tinta aplicada é espessa, com a pincelada talhando cada figura como se fosse feita de madeira. (Na ilustração à direita, Os comedores de batata, 1885, óleo sobre tela, 82x114 cm, Vincent van Gogh Museum, Amsterdã).

O café noturno

Era um café situado na praça Lamartine, estabelecimento muito comum na Paris da época, dormitório para bêbados, mendigos e prostitutas. Van Gogh viveu ali durante algum tempo antes de se alojar na Casa Amarela. A posição do observador é bastante elevada, o que amplia a sensação de profundidade das linhas do piso. Também a posição da mesa de bilhar, perpendicular à linha de base do quadro, aprofunda o efeito de perspectiva. (Na ilustração à esquerda, O café noturno, 1888, óleo sobre tela, 70x89 cm, Yale University Art Gallery).

O uso das cores complementares puras, especialmente o contraste entre vermelho e verde, torna o ambiente abafado, um universo fechado em si mesmo pela força das cores. Até mesmo a luz parece ter dificuldade em se movimentar pelo ar entumecido, ficando "ancorada", próxima aos lampiões.

Das mesas visíveis, duas estão cobertas de copos e garrafas vazios, o que indica uma hora avançada da noite (o relógio marca 0h:14), em que muitos dos freqüentadores já foram embora do bar. Três mesas estão ocupadas e, em duas delas, na extrema esquerda e direita da pintura, as pessoas nada consomem. Pela sua postura corporal, parece que já se acomodam para passar a noite, dormindo debruçados sobre as mesas. Ao fundo um casal conversa e bebe. À direita, um homem bebia e, ao que parece, levanta-se para posar para o artista. Olha para ele fixamente.

As personagens são dispostas distantes umas das outras para aumentar a sensação de isolamento e solidão. Van Gogh escreveu a seu irmão que procurou expressar neste quadro "as terríveis paixões humanas com o vermelho e o verde", e que um café "é um lugar onde uma pessoa pode arruinar-se, enlouquecer ou cometer um crime".

A noite estrelada

Este quadro é pintado quando da estadia do pintor em Saint Remy. Naquela época, o pintor esteve internado em um asilo psiquiátrico, onde realizou mais de 150 quadros. A tela é dividida horizontalmente pela linha do horizonte e verticalmente pelo cipreste. A cidade longínqua, de pequenas casas, contrasta fortemente com o cipreste em primeiro plano. As pinceladas são curvilíneas, e se integram de maneira rítmica sobre a superfície da pintura. Céu, cipreste e cidade integram-se em um movimento turbilhonante de luz e espiritualidade. (Na ilustração à direita, Noite estrelada, 1889, óleo sobre tela)

Pai Tanguy

Tela do período parisiense do pintor. Tanguy era um comerciante de arte, amigo de Cézanne, Pissarro, Monet, entre outros. Tanguy conservou este retrato até o final da vida, prova da amizade que reuniu a ambos. A salientar, na tela, o fundo, atrás da personagem, recoberto de estampas japonesas, que desempenharam importante papel nas artes européias do final do século XIX. Van Gogh as admirava e chegou a ter uma coleção destas gravuras. A pincelada vigorosa e as cores intensas são indicações de seu estilo maduro de pintar. (Na ilustração à esquerda, Retrato de Pere Tanguy, 1887-8, óleo sobre tela, 92x75 cm, Museu Rodin, Paris).

Retrato do Dr. Gachet

O dr. Gachet aqui retratado era um psiquiatra e pintor amador. Van Gogh trata-se com ele, e pinta este belo retrato. O médico tem uma expressão melancólica, os olhos azuis perdidos ao longe, amplificados pelo azul presente ao fundo. Toda a composição baseia-se na presença de várias diagonais. Uma, a da mesa sobre a qual debruça-se o personagem, é pintada de vermelho vivo e é quase paralela à diagonal produzida pela inclinação da cabeça do médico. Seus dois antebraços correspondem a duas diagonais paralelas, antagônicas à diagonal da mesa. As pinceladas são dramáticas, pesadas, especialmente no casaco. (Na ilustração à direita, Retrato do dr. Gachet, 1890-06, Museu d'Orsay).

O quarto do artista em Arles

Aqui estão as três versões que o artista pintou deste tema. Van Gogh escreveu a seu irmão: 'a contemplação do quadro deve repousar a cabeça, ou melhor, a imaginação.' Todas as sombras são eliminadas e as cores puras são modeladas através da aplicação da tinta espessa. A perspectiva conduz o olhar para dentro da quarto e a janela, entreaberta, atrai a curiosidade do observador.

A amizade de Gauguin

Os dois artistas desenvolveram uma amizade tumultuada pelos temperamentos fortes e obstinados. Os objetos sobre a cadeira de Gauguin parece que esperam pela volta do amigo. As velas eram acesas nas portas das casas para iluminar o retorno dos que haviam partido.


  • A cadeira de Vincent com cachimbo, de Van Gogh
    1888, óleo sobre tela, National Gallery, Londres

  • Cadeira de Gauguin com livros e vela, de Van Gogh
    1888, óleo sobre tela, Rijksmuseum Vincent Van Gogh, Amsterdã
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