Picasso é o
paradigma do artista moderno. Inventivo, desafiador, engajado em lutas sociais.
Todas as características que apontamos na arte de vanguarda do início do
século, Picasso vai encarná-las com tal amplitude e intensidade como nenhum
outro artista do século XX o fez. Espírito irrequieto, não hesitou em
abandonar uma fase extremamente candente e poética, como a denominada fase
azul para lançar-se no experimentalismo geométrico do Cubismo. Quando
todos já haviam se inteirado das novas descobertas plásticas, retoma um estilo
classicista totalmente incompreensível para quem não entende seu gênio
libertário (Na ilustração, Auto-retrato, 1907, óleo sobre
tela, National gallery, Praga).
Por diversas vezes
tomou partido em situações sociais que o afligiam. Usou dos pincéis como
instrumento de denúncia, tanto durante a Guerra Civil espanhola, quando
denunciou o bombardeio nazista sobre a cidade de Guernica, como quando pintou um
protesto contra a guerra insana do ocidente contra a Coréia.
Fase azul
Os quadros da fase
azul caracterizam-se pelo quase monocromatismo. As telas são realizadas em uma
gama estreita de cores, variando em tons de azul e tons pastel. O tema é sempre
a pobreza ou a morte. Os personagens são envolvidos por uma aura de solidão e
desespero, os olhares são entristecidos, a tez pálida, os pés descalços.
Mendigos junto ao
mar
A rudeza das
superfícies não impede que toda ternura do artista pelos miseráveis extravase
nesta pintura. Os tecidos rotos põem à mostra as anatomias esqueléticas, como
nas costas da mulher, onde aparece a ossatura saliente. O frio congela os corpos
e as almas. O azul profundo configura um ambiente melancólico devastador. (Na
ilustração à direita, Mendigos junto ao mar (A Tragédia), 1903, óleo
sobre madeira, National Gallery of Art, Washington).
A Vida
Esta pintura é
inspirada no suicídio do pintor Casagemas, amigo de Picasso. Morto pela
desilusão amorosa, Casagemas é retratado abraçado àquela que parece ter sido
a causa de seu infortúnio, uma modelo que freqüentava o atelier de ambos,
Germaine. Talvez Picasso quisesse garantir ao amigo o abraço da amada, ao menos
na eternidade do imaginário da arte. (Na ilustração à esquerda, A vida, 1903,
óleo sobre tela, Cleveland Museum of Art).
Fase rosa
A fase rosa é um
retorno do artista a alegria da vida. Os tons azuis e a melancolia da fase
anterior são amenizados pela introdução de um novo tema, os saltimbancos,
assim como uma nova gama de cores, mais variada. Picasso vai explorar este tema
em inúmeras situações, demonstrando seu apreço pela vida circense. Retrata
famílias de acrobatas, mulheres com seus bebês em meio a animais do circo,
meninos treinando malabarismo sobre bola, meninas adestrando cavalos. As cores
são mais suaves, predominando os tons vermelhos muito pálidos, assim como o
tom geral da pintura torna-se mais luminoso.
Retrato de Gertrude
Stein
Este é um quadro de
grande potência. Está a meio caminho entre a fase rosa e o cubismo. O
cromatismo é comum a outras telas daquele período, mas as formas já
prenunciam a abstração que está por vir. A pose da retratada - famosa
escritora norte-americana e uma das mecenas do artista no início de sua
carreira - denota sua forte personalidade. O corpo se inclina para a frente, em
direção ao observador, como a querer sussurrar-lhe algo. O rosto,
que Picasso transforma em uma máscara africana, é inquisidor e tem a boca
severa e irônica. (Na ilustração à esquerda, Retrato de Gertrud Stein, 1906,
óleo sobre tela, 100x81,3 cm, MOMA).
Cubismo
A primeira tela
cubista é Demoiselles d´Avignon. A metamorfose de culturas, européia em africana, vai concretizar-se de forma
virulenta na Demoiselles. Retratando uma cena de meretrício,
Picasso converte as personagens em verdadeiros ícones primitivos, anímicos.
Como deusas da fertilidade tribais, as personagens tornam-se míticas pela
mistura de aspectos antropomórficos com geometrismos típicos da arte
primitiva.
Les demoiselles d´Avignon
Esta é considerada
não apenas uma das obras-primas de Picasso como, também, a pintura que inicia
o movimento Cubista (e, por que não, o modernismo também) nas artes.
Representa uma cena de bordel na rua de Avignon, em Barcelona. O estilo
agressivo da pintura é uma mescla da fase rosa de Picasso com a arte africana e
oceânica, especialmente máscaras rituais. (Na ilustração à direita, Les demoiselles
d'Avignon, 1907, 243,9x233,7 cm., óleo sobre tela, MOMA). Para ver detalhes
desta pintura, clique aqui.
O que se observa na
pintura é uma progressiva transformação do rosto das moças em máscaras.
Enquanto as duas figuras do centro da composição mantém o caráter
naturalista da representação, as duas que estão à direita já são
autênticas deusas da fertilidade primitivas. Os detalhes da anatomia são
eliminados em proveito da planificação das formas. É uma obra selvagem, rude,
parece que talhada a machado. Contribui para este efeito a falta de modelagem
entre as cores, que são aplicadas sem que haja modulação, suavização, entre
uma e outra.
Também é nova a
matéria que é ali representada. Blocos de arestas agudas, alguns
translúcidos, rígidos como vidro. Outros corroídos, raspados, atritados entre
si. Compositivamente, o conjunto se articula em torno à recorrência da forma
de lua crescente que é repetida em várias partes da pintura. Assim é o
formato do corpo da figura à direita, em baixo, acocorada. É o formato da
fatia de melancia (ou melão?) na pequena natureza morta ao centro, em baixo. No
próprio rosto desta figura, o nariz lembra também uma lua crescente. Esta
pintura é um golpe violento contra o classicismo na arte européia. Depois das
Demoiselles, a arte nunca mais foi igual à da tradição renascentista. É uma
pintura que pode pretender muito (nada?), menos ser bela no sentido clássico do
termo.
Cubismo analítico
O cubismo posterior,
dito analítico, é bastante diferenciado deste cubismo africano
inicial. Sob influência de Cézanne, Picasso e Braque vão ampliar o aspecto
geométrico de suas obras, tornando os objetos e figuras cada vez mais
segmentados por polígonos. A figura deixa de ser representada dentro dos
cânones clássicos e passa a ser descrita em termos de uma multiplicidade de
pequenas áreas que apenas sugerem as formas dos corpos. Picasso e Braque
pretendiam estar fazendo obra realista e muitas teorias foram desenvolvidas
pelos críticos para encontrar o realismo nas pinturas que produziam. Uma destas
teorias é a que afirma que no Cubismo o objeto é representado a partir de
diversos pontos de vista, por isto o aspecto caleidoscópio. Na verdade,
ninguém nunca conseguiu provar esta tese, a que permanece apenas como uma
curiosidade não comprovada.
O abstracionismo (e
não realismo) era tão evidente no desenvolvimento do cubismo que os próprios
autores em breve passaram a utilizar-se de fragmentos do mundo para tentar
novamente ancorar as obras dentro de uma proposta realista. Surgiram as colagens
de pedaços de jornal, retalhos de tecidos, rótulos de garrafas etc. Era como
se os dois pintores pretendessem trazer o mundo para suas pinturas. Evitavam
alcançar a pura abstração, depois realizada por Kandinsky, Malevich e
Mondrian.
Moça com bandolim
A fragmentação da
forma é levada a extremos. Toda a figura é descrita em termos de planos que se
justapõem e interpenetram. Poucas linhas descrevem alguns aspectos da anatomia
que mantém a reminiscência do objeto. Os volumes não se coadunam. (Na
ilustração à esquerda, Moça com bandolim, (Fanny Tellier), 1910, 100,3x73,6 cm,
óleo sobre tela, MOMA).
Natureza morta com
cadeira de palha
Esta é, talvez, a
primeira pintura cubista em que Picasso se utiliza de materiais reais fixados à
tela. Inaugura toda uma fase nova do cubismo, o das colagens. A tela de palhinha
ao fundo é uma material real, assim como a corda que rodeia o perímetro da
composição. A sensação é a de uma inusitada incoerência entre a natureza
morta abstrata, pintada, e o material real colado. Uma das razões de Picasso e
Braque utilizarem-se deste recurso foi a sua recusa em levar a experiência
cubista até as raias da pura abstração. Ambos os artistas tinham reservas
contra o que foi depois alcançado por Kandinsky, Malevich e Mondrian. Outra
inovação interessante desta pintura é o resgate do formato oval da tela de
pintura. (Na ilustração à direita, Natureza morta com cadeira de palha, 1912, 29x37 cm, óleo e tela
sobre tela, Musée Picasso, Paris).
Cubismo sintético
Entretanto, a
qualidade das superfícies cubistas como elementos decorativos – dada a sua
estilização – acabou por alcançar o chamado cubismo sintético. Com a
participação principalmente de Juan Gris, o cubismo chega a um estágio
ornamental. Se anteriormente, no cubismo analítico, a austera gama de cores
variava pouco entre o verde, o marrom e o ocre, no cubismo sintético vamos
encontrar uma maior variedade tonal. O cromatismo variado é somado a uma maior
valorização das superfícies pela sua própria qualidade estética,
especialmente pelo destaque das texturas. O próprio desenvolvimento do cubismo
desmente qualquer análise que aponte realismo em suas obras. Entre a
descrição da realidade e a estética, Picasso ficou com a segunda.
Três músicos
Nesta fase do cubismo
sintético, Picasso pinta as texturas dos materiais que antes colava sobre as
telas. Ao invés de colagem, todas as diversas texturas vistas aqui são
reproduzidas meticulosamente com o pincel. Os três músicos são totalmente
convertidos em polígonos , cujas poucas reminiscências humanas são os
círculos colocados a título de olhos e as pequeníssimas mãos que empunham os
instrumentos. (Na ilustração à esquerda, Os três músicos (Os Músicos
mascarados), 1921, 200,7x222,9 cm, óleo sobre tela, MOMA).
Como planos, eles se rearticulam no espaço pelo jogo de
contigüidades e sobreposições. Em alguns pontos da tela, a cor recupera o
contínuo de um corpo atravessado por outro, como no caso do músico de branco,
atravessado que é pela mesa. O mesmo não ocorre com a área em azul
acinzentado em torno dos olhos do músico do meio. A mesma área invade o
músico de branco e perpassa por baixo da partitura à direita. Impossível
saber a quem pertence esta forma.
Classicismo e
abstracionismo
Surpreendentemente,
após as incursões no abstracionismo, Picasso retorna (avança?) a uma fase
clássica. Simultaneamente a pinturas que continuam desenvolvendo um estilo
geométrico e ornamental, vai produzindo obras cuja inspiração parece advir do
universo greco-romano. As figuras são maciças, de proporções que lembram a
escala heróica de Michelangelo. São banhistas, pares e trios de mulheres nuas,
jovens flautistas.
Dentro da tendência
abstracionista, herdeira do cubismo sintético, Picasso produz diversas
obras-primas, inclusive o aclamado Guernica. São pinturas em que
o senso estético da variedade das cores e das texturas põe-se a serviço de
uma poesia visual de grande inventividade. Um quadro como Menina diante do
espelho, revela toda a gama de recursos estilísticos do pintor, em uma
cena de jovialidade. Em outros quadros, como a Mulher chorando,
utiliza-se da mesma inventividade para produzir testemunho trágico da tristeza.
Três dançarinas
Esta tela representa
um momento de virada no estilo de Picasso. Desde a segunda década do século
ele vinha produzindo em dois estilos totalmente distintos: ora pinturas
cubistas, utilizando todo o repertório estilístico que havia desenvolvido, ora
pinturas clássicas, dentro da mais helenística das tradições. (Na
ilustração à direita, As três dançarinas (A dança), 1925, 215x142 cm,
óleo sobre tela, Tate Gallery, Londres).
Com as Três
dançarinas, ele realiza uma síntese dos dois estilos. Depois dela – 1925 -
esta síntese vai se tornar a norma de sua arte. Estruturalmente a tela emprega
as qualificações cubistas, inclusive as texturas imitando colagens de
materiais, tais como no papel de parede. Já a anatomia das figuras sucumbe
diante da extrema inventividade do artista. A matéria dos corpos funde-se com a
matéria das paredes, dos batentes, das janelas. Seios viram olhos, sombras
adquirem vida. O fundo irrompe sobre as figuras, tornando as figuras grotescas,
mas de uma alegria vibrante e efusiva. É uma tela talvez mais selvagem e
agressiva que o Demoiselles d´Avignon.
Menina diante do
espelho
O motivo do espelho
é talvez dos mais recorrentes na história da pintura. Seja através dos
auto-retratos realizados pelos artistas (onde o espelho está implícito) até
em obras como o Narciso, de Caravaggio, ou o Casal Arnolfini de Van Eyck, ou
mesmo Las Meninas de Velázquez - tão admirado por Picasso –, obras onde o
espelho é parte fundamental da narrativa. (Na ilustração à direita, Menina
diante do espelho, 1932, 162,3x130,2 cm, óleo sobre tela, MOMA).
Nesta obra, Picasso converte o corpo
humano em um arabesco, um ornamento. Embora sugira de longe a anatomia humana,
especialmente no perfil do rosto da menina, todo o resto da pintura é um
inventar com formas, típico desta fase do artista. Os seios e as nádegas
surgem como elementos eróticos em um universo onde predominam as curvas e as
esferas. A extrema riqueza das texturas e das cores torna a obra radiante.
Mulher que chora
Esta é uma obra
contemporânea do painel Guernica. É mais uma demonstração da genialidade do
artista em converter a realidade em sua criação, como se fora um xamã. Os
olhos da figura, por exemplo, parecem pequenas vasilhas que derramam grossas
lágrimas sobre o lenço transparente. (Na ilustração à esquerda, A mulher que
chora, 1937-10-26, 60x49 cm., óleo sobre tela, Tate Gallery, Londres).
Guernica
Picasso pinta esta
obra em 1937, para o pavilhão da República Espanhola na Exposição
Internacional de Paris. É inspirado no bombardeio de Guernica, a cidade que
fora um dia capital do país basco. O bombardeio fora uma demonstração das
letais técnicas bélicas nazistas sobre uma população indefesa. É uma tela
enorme (7 metros e 82 centímetros de largura por 3 metros e 50 centímetros de
altura). Nela está representada a brutalidade em sua forma mais anímica. (Na
ilustração à direita, Guernica, 1937, óleo sobre tela, 349,3x776,6 cm, Museu nacional de Arte Reina Sofia, Madri).
Para ver detalhes deste painel, clique aqui.
A força agressiva
desmesurada é representada por um touro que atravessou a tela vindo desde a
direita, destruindo tudo à sua frente, e que agora pára, à esquerda, de boca
aberta, cauda empinada, para contemplar o resultado de sua ação. O rastro da
catástrofe se espalha pelo seu caminho. A figura à direita, braços abertos
para o ar, grita pela dor do impacto. Outra figura se agacha para fugir, os
olhos arregalados acompanhando o movimento da fúria. Um cavalo grita sua
própria morte, ao centro, o ventre rasgado por uma terrível chaga aberta.
Pedaços de um corpo se espalham pelo chão, a mão empunhando o que restou de
uma espada, a cabeça com os olhos vazios, sem vida. À extrema esquerda uma das
figuras mais trágicas. Uma mulher segura ao colo o filho cujo corpo pende,
inerte. O grito da dor da perda soma-se ao terror da expectativa do ataque do
touro que, parece, agora vai investir contra ela. Acima, uma figura assiste a
tudo, olhos arregalados, boca aberta, segurando um lampião, apesar da luz
acesa. Alguns críticos associam esta personagem à Estátua da Liberdade, em
Nova York, uma metáfora dos Estados Unidos da América.
As releituras
Se não bastassem
tantas dicotomias nesta personalidade tão multiforme quanto genial, Picasso vai
homenagear seus heróis da pintura em uma série de releituras que faz de suas
obras-primas. Talvez o artista mais criativo do século, Picasso não teme
debruçar-se sobre Velázquez, sobre Delacroix, sobre Manet, entre tantos
outros, para reverenciá-los reinterpretando suas obras magistrais. Tem séries
de obras baseadas no gigantesco Las meninas de Velázquez. A
infanta Margarida lá está, o clima está lá, a composição lembra o
original, mas a personalidade do mestre catalão a tudo transforma,
assimilando-os a seu caudal inventivo.
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| Velazquez,
Las meninas, 1656-7, óleo sobre tal, 318x276 cm, Museu do Prado, Madri. |
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| Picasso, 1957-08-17,
Las Meninas (Velazquez), 194x260 cm, óleo sobre tela, Museu Picasso |
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