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Análise do estilo
O nome de Claude Monet está indissociavelmente ligado ao movimento
Impressionista. Foi um de seus principais mentores, e a este movimento
permaneceu fiel até o final de sua vida. Estudar a pintura de Monet é também
estudar o Impressionismo, e a importância que este movimento teve para a arte
do século XX pode ser vista também na pintura de Monet. (ao
lado, Renoir, Retrato de Claude Monet, 1875, óleo sobre tela, Museu d'Orsay, Paris).
Monet nasceu em Paris em 1840 e, embora tenha vivido uma
juventude de grandes dificuldades financeiras, alcançou reconhecimento e
estabilidade financeira ainda durante sua vida. Embora o Impressionismo tenha
provocado, em seu início, grande repercussão negativa, em pouco tempo será
reconhecido como a primeira escola de pintura moderna, influenciando toda a arte
posterior.
Como pintor, realizou uma verdadeira revolução, porém
não deixou qualquer escrito teórico, nem mesmo a indicação a terceiros de
quaisquer preocupações teóricas. Esta situação - tão atípica se pensarmos
no desenvolvimento posterior da arte no século XX - levou alguns críticos a
considerar que Monet não seria totalmente consciente da revolução cultural
que iniciara. Um reles preconceito, que só pode ser formulado por pessoas
formadas dentro da escola modernista teórica, para quem o pensamento com
pincéis é simplesmente inexistente ou insignificante, seja ele de Monet ou
de qualquer outro artista.
Monet é um dos maiores pintores na técnica do óleo da
história. Sua pintura é, essencialmente, plástica. Soube extrair da tinta e
dos pincéis uma estética poucas vezes alcançada na história da arte. Quando
olhamos para seus quadros, vemos uma superfície extremamente fluida e tátil.
Não há linhas de contorno, e a estrutura da composição é diluída em
manchas que avançam e recuam, em profundidades e intensos cromatismos.
O tema de sua pintura é a luz, e o modo como ela interage com os objetos
através da mediação da pincelada. A atmosfera, os reflexos, o translúcido, a
irisação, a refração, entre outros, são os verdadeiros temas de sua arte.
Se ele se utiliza de uma fachada de uma igreja ou de lírios-d'água sobre a
superfície de um lago, isto é apenas um pretexto. Em Monet, a luz cria uma
nova matéria. Ou melhor, ela nos mostra uma matéria - que pensávamos tão bem
conhecer - de modos novos e inimaginados. As pedras da fachada da igreja
animam-se, a água do lago torna-se melíflua. Oscar Wilde disse que, antes de
Monet, ninguém havia observado que os nevoeiros em volta das pontes de Londres
se irisam, e que não era mais possível olhar para aqueles nevoeiros sem se
lembrar do pintor francês. (ao lado, Londres - Casas do Parlamento ao pôr do
sol, 1903, óleo sobre tela, coleção privada).
Mas tudo se realiza através da pincelada. O toque livre de Monet remete aos
mestres do pincel, entre os quais Rembrandt. A tinta é colocada sobre a
superfície da tela de modo espontâneo e ligeiro, sem ser descuidado,
entretanto. A divisão dos tons, com a qual os impressionistas segmentavam as
cores em suas componentes primárias, levou o artista a uma cada vez menor
preocupação com a forma. Uma de suas últimas séries de pinturas, retratando
lírios d'água, chega a uma tal dissolução da forma na pincelada que, um
passo a mais, e se estará já dentro de um estilo abstrato-informal. A poética
destas pré-formas, a magia que se desprende destes quase-objetos, nos coloca na
posição de seres primitivos que estão descobrindo um mundo novo, onde cada
pequena diferença no contínuo adquire significação inusitada e
extraordinária. (ao lado, uma visão em minúcia da pincelada de
Monet em um detalhe da La Grenouillére, 1869, óleo sobre tela, MOMA.
Note como as pinceladas são bastante distintas umas das outras).
Com isto chega-se a um ponto importante na trajetória do
artista. Antes de ser um método pseudo-científico de pintar, uma tentativa
cientificista canhestra de explicar a natureza das coisas através da visão, a
pintura de Monet é uma tentativa extraordinária de nos posicionarmo-nos
novamente diante do mundo, com os olhos da imaginação (e, portanto, da poesia)
totalmente abertos e inocentes. Mais do que ciência, sua pintura é um modo de
ser-no-mundo, um modo em que o simbolizar ainda não se iniciou (ou ainda não
terminou) e em que tudo, cada folha mergulhada na água, cada raio de sol, pode
de repente iluminar-se de uma vida mágica e independente.
Com Monet a pintura recupera um frescor anterior à grande
carga de conhecimentos técnicos acumulada pela tradição pictórica desde o
renascimento. Com ele, a pintura começa de novo. É como se ele se
desembaraçasse da linguagem acadêmica da pintura para começar um novo modo de
ver e de pintar, poético e espontâneo. Este é o legado revolucionário que
deixou para as gerações posteriores de vanguardistas. Sua pincelada livre e o
uso da cor pura logo vão germinar e se desdobrar nas diversas escolas do
início do século XX.
O impressionismo
O termo que definiu o movimento teve uma origem
pejorativa. Foram chamados de impressionistas pelo crítico Louis Leroy
os jovens rebeldes que expuseram em 1874 em Paris, no estúdio do fotógrafo
Nadar. As telas dos impressionistas foram recebidas pelo público com grande
aversão, injúrias e zombarias. Poucos críticos entenderam o que significava
artisticamente o movimento e qual era o motivo estético que os orientava.
Tecnicamente, os impressionistas tendiam a abandonar o que
pregava a tradição e o ensino acadêmico para a realização da pintura. Por
exemplo, ensinava a tradição a polir a aplicação da tinta sobre a
tela, de modo a obter uma aparência de superfície lisa, sem a presença
visível das pinceladas. Os impressionistas, ao contrário, aplicavam a cor
fazendo questão que suas pinceladas ficassem visíveis. O aspecto final da obra
era o de algo inacabado, fragmentado, de formas que se reconstituíam apenas na
visão.
Por outro lado, a tradição ensinava a elaborar o
claro-escuro da imagem em escalas em degradé de castanho ou cinza e depois a
aplicar, sobre estas escalas, a cor local de cada objeto. Esta técnica garantia
unidade tonal à composição mas, por outro lado, implicava em uma redução na
intensidade (saturação) de cada cor. As cores na pintura acadêmica tendiam a
parecer embaçadas (dessaturadas) pela mistura com o cinza, o siena ou o
verde-musgo. A tonalidade das telas impressionistas, ao contrário, era
construída com as próprias cores puras, diretamente sobre o branco da tela.
Com isto obtinha-se uma intensidade e uma vibração de cor muito maior.
Também as sombras das pinturas impressionistas
eram elaboradas de modo diverso ao da tradição. Acompanhando as então
divulgadas pesquisas sobre a natureza da visão de Chevreul, os Impressionistas
utilizavam-se de pares de complementares para representar a luz e a sombra em
suas telas. Em adição ao que foi dito no parágrafo anterior, se um objeto na
tela impressionista tinha a cor local amarela, por exemplo, as sombras deste
objeto eram pintadas em violeta, a qual é a cor complementar do amarelo.
O pintor acadêmico, por outro lado, misturava o vermelho
e o amarelo na paleta para depois aplicar o laranja obtido sobre a superfície
da tela. A obtenção da cor correta de um objeto era uma ciência realizada com
argúcia e sensibilidade, com a mistura de cores quentes e frias complementares.
Os impressionistas, ao contrário, obtinham o laranja em suas telas pela
aplicação de pequenas pinceladas de vermelho e laranja justapostas, bem
próximas, de modo que, vistas de uma certa distância, a retina tendia a
misturá-las produzindo, apenas na percepção, o laranja obtido. Chamava-se a
esta técnica impressionista de divisão dos tons.
Finalmente, a mais importante das alterações na
tradição realizada pelos impressionistas foi o abandono da pintura realizada
apenas no estúdio para uma pintura realizada em pleno ar, procurando retratar a
luz solar em toda a sua infinita mutabilidade. Um pouco mais mítica do que
real, esta alteração foi seguida muito proximamente por pintores como Monet,
que realizou, por exemplo, séries inteiras de telas onde retratava uma
determinada cena em diversas horas do dia, ou em diferentes estações do ano,
para mostrar como um mesmo objeto pode se alterar significativamente sob a
ação da luz e da atmosfera.
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