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Análise do estilo
O
epíteto de gênio nunca foi empregado com tanta propriedade a qualquer artista
quanto o é quando aplicado a Michelangelo. Dono de uma inesgotável capacidade
criadora, foi o paradigma da personalidade genial, reverenciada pelos
românticos do século XIX. Neurastênico, masoquista, desajustado social,
hipocondríaco, homossexual, megalomaníaco, visionário, Michelangelo criou
obras monumentais, cuja realização muitas vezes chegou às raias do
sobre-humano. (Na ilustração, um autoretrato)
Técnica preferida:
mármore
Embora
pintasse magistralmente, compusesse poemas e projetasse em arquitetura, a
técnica preferida de Michelangelo era a escultura em mármore. Michelangelo
chegou mesmo a declarar que a pintura era uma "arte menor". Utilizando
os tradicionais equipamentos da talha em pedra, cinzéis e
pua, Michelangelo era dono de extraordinária técnica, desde a escolha dos
blocos de pedra até o esmerado polimento final. (Na ilustração, detalhe do
acabamento no rosto do Cristo na Pietá de 1499).
A pedra de mármore
própria para a escultura não pode ser explodida para ser obtida da rocha. A
utilização de explosivos, tão comum nas pedreiras nos dias de hoje, esfacela
o núcleo da pedra, criando trincas e rachaduras que comprometem a consistência
da rocha. Para ser esculpida, a pedra deve ser cortada no método tradicional,
isto é, inicialmente realizando uma série de furos profundos, em linha reta,
sobre a superfície da qual se pretende destacar o bloco. Depois, com a
colocação de cunhas em cada furo, ir martelando até que o bloco desejado se
destaque da pedra.
A talha também exige
certos cuidados. O trabalho do desbaste deve ser realizado com batidas nos
cinzéis de forma rítmica, isto é, cada batida da marreta no cinzel deve
seguir uma cadência fixa. A razão disso é que cada batida realizada sobre a
rocha cria ondas de reverberação que percorrem toda a pedra. Se as batidas
não forem rítmicas, duas seqüências de reverberações em momentos distintos
podem trincar a pedra internamente.
Também
a planificação da escultura deve ser precisa, pois a pedra não permite
retoques. Uma vez talhada equivocadamente, não é possível colagens ou
remendos. Michelangelo trabalhava a pedra diretamente, "libertando" a
figura de dentro da rocha, como ele mesmo dizia. Algumas de suas esculturas ele
deixou inacabadas, como alguns Escravos, assim como algumas Pietás.
O objetivo expressivo havia sido alcançado sem a necessidade dos acabamentos
finais. (Na ilustração, um Escravo (acordando), 1519-36, mármore, alt 267 cm, Galleria dell'Accademia, Florença)
Finalmente, o
acabamento era uma das mais desgastantes e penosas experiências do ato
criativo. Todo desbaste final, sutil, deveria ser feito com a utilização de
pedras abrasivas, lenta e progressivamente, eliminando toda marca de cinzel que
houvesse ficado. Nos dias de hoje, utilizamo-nos de esmerilhadeiras e lixadeiras
elétricas, o que facilita em muito tais atividades.
Tema
A figura masculina
nua é o tema principal de Michelangelo. Estudos desenvolvidos sobre
cadáveres ampliaram a já genial habilidade do artista em desenhar a anatomia
perfeita de suas personagens. Até os últimos detalhes do corpo eram retratados
sem que se perdesse a organicidade das figuras.
Mesmo
quando a obra a ser realizada tinha um motivo pouco afeito ao nu, como a Sagrada
Família, por exemplo, Michelangelo incluía a figura masculina nua.
Para muitos críticos, inclusive, o torso de suas figuras detinha tão intensa
expressividade que podia rivalizar com os rostos como fonte de atração da
imaginação. (Na ilustração, A Sagrada Família com o Menino João Batista (Tondo
Doni), c 1503, têmpera sp, dia 120 cm, Galleria degli Uffizi, Florença)
Por outro lado, as
figuras parecem ser gigantescas. São representadas em uma escala que amplia a
dimensão relativa dos membros e do tronco em relação ao tamanho da cabeça.
Considerando a técnica tradicional de proporcionar a altura do corpo em
relação ao tamanho da cabeça, Michelangelo reduz a proporção
relativa do tamanho da cabeça em relação ao corpo. Isto é, o corpo mede mais
cabeças nas esculturas e pinturas de Michelangelo. Outro artista que
utilizava-se desta (des)proporção era El Greco, com a diferença que em El
Greco as figuras são mais esbeltas, esguias, ao contrário do maciço de um Moisés
ou de uma Sibila do teto da Capela Sistina.
Tondo Doni
É a primeira pintura
(que se conheça) de Michelangelo. Encomendada por Agnolo Doni, por motivo de
seu casamento, foi pintada simultaneamente à criação do Davi. A Família é
representada de maneira quase informal. Maria está à frente, ao que parece
lendo (o livro ainda está sobre seus joelhos), e volta-se pois o Menino
segura-lhe os cabelos, quer ir ao seu colo. Michelangelo dá, ao corpo da
Virgem, formas musculosas, e exacerba a elasticidade do corpo do Menino. As
figuras são modeladas como esculturas, de contornos firmes e bem delimitados.
Ao fundo, um grupo de nus masculinos é de difícil interpretação, incomum
neste tipo de cena.
Pietá
Michelangelo
esculpiu esta cena ('Piedade') quando tinha 23 anos. Ao saber que um apreciador
recusara-se a acreditar que alguém tão jovem pudesse esculpir obra de tal
magnitude, Michelangelo talhou seu nome na faixa que atravessa o seio da Virgem.
Foi a sua única escultura assinada. O tema da Mãe com seu Filho morto ao colo
é um dos mais dramáticos da iconografia cristã.
A beleza trágica do
grupo deriva de seu classicismo, onde se somam a angústia do momento com a
serenidade da composição triangular, e especialmente na postura contida da
Virgem. Há um clima de melancolia, de profundo pesar, mas sem o sofrimento que
caracterizou inúmeras outras representações da mesma cena, feitas por outros
artistas. Tecnicamente, o trabalho de talha do mármore é perfeito, o
acabamento polido, até que a superfície branca da pedra parecesse
translúcida. Contribuem para a qualidade da anatomia do corpo de Cristo os
inúmeros estudos que Michelangelo realizou com cadáveres.
Davi
Michelangelo
esculpiu esta obra quando tinha apenas 26 anos. O imenso bloco de mármore havia
sido encomendado para que o escultor Duccio ali talhasse a figura de um profeta.
Com o falecimento deste repentinamente, a pedra ficou à espera de outro
escultor. Quando Michelangelo terminou a escultura, um grupo de artistas - entre
os quais estavam Leonardo, Botticelli, Filippino Lippi e Perugino - foi indagar
de Michelangelo onde deveria ficar a estátua. O mestre indica a praça central
de Florença. O povo da cidade, chocado com a nudez da figura, lapidou a
estátua, em nome da moral.
Perfeita, tanto do
ponto de vista técnico quanto anatômico, a obra se transformou num símbolo de
Florença. Hoje, ela foi substituída na praça por uma cópia. Davi olha ao
longe como se o combate com o gigante estivesse prestes a acontecer. A ausência
da cabeça de Golias – algo comum em representações da mesma cena por outros
artistas - concorda com esta interpretação. O rapaz está tenso, mas não
angustiado. Seu ar desafiador mostra a 'ação em suspenso' que era
característica das esculturas de Michelangelo.
Nos olhos pode-se ver
uma das provas da imensa genialidade do mestre. Ele perfurou a região da pupila
dos olhos em forma de (V), como um casco de cavalo, de maneira que quando a luz
incide sobre os olhos transversalmente, ilumina mais a área ressaltada (o V),
deixando na penumbra a região cavada. Isto dá um efeito extremamente realista
aos olhos, que parecem brilhar com o espírito do Rei guerreiro.
Tumba de Júlio II
Foi
chamada por Condivi (aluno e amigo de Michelangelo) de 'tragédia do túmulo',
pois sua execução durou cerca de 32 anos e, do grandioso projeto original,
restou 'apenas' o conhecido Moisés, apenas uma escultura secundária no
projeto original. A idéia do Papa era construir para si um monumento que
lembrasse a magnificência dos túmulos da Roma antiga. Após ter passado 8
meses em Carrara, selecionando as pedras de mármore que fariam parte do
projeto, Michelangelo vê seu contrato ser desfeito por Júlio II (segundo
alguns, a conselho do enciumado Bramante). Os rompimentos e reatamentos dos
contratos em torno a essa obra arrastaram-se, tornando-se um suplício para o
artista durante quase toda a sua vida. Júlio II contratou-o para realizar
outras obras, como uma colossal estátua em bronze, para ser erguida em Bolonha
(da qual nada resta, pois foi destruída em uma guerra) e a pintura do teto da
Capela Sistina, em Roma.
Moisés
Projetada
inicialmente como uma das esculturas do túmulo do Papa Júlio II, esta
escultura tem tão grande realismo que, segundo a lenda, quando Michelangelo
finalizou a obra golpeou-a no joelho com a marreta e gritou: 'Fala!'. A
escultura revela um personagem grandioso, dono de uma potência de personalidade
que os contemporâneos de Michelangelo chamavam 'terribilitá'. Ao mesmo tempo
senhor de si, líder sensato, e ao mesmo tempo capaz de uma ira
arrasadora.
Os chifres na cabeça
de Moisés são referência a uma interpretação medieval do Livro do Êxodo
(34, 29). Na vulgata, no período ‘Quando Moisés desceu do Sinai, seu rosto
resplandecia,..., isto é, lançava raios’, a expressão 'raios' é traduzida
no sentido próprio de chifres. Por isso, os artistas medievais representavam
Moisés com um par de chifres. O chifre é o símbolo da eminência, da
elevação, do poder.
Capela Sistina
As pinturas do teto
da Capela Sistina foram encomendadas pelo Papa Júlio II, e durou quatro anos a
decoração dos 1000 metros quadrados. Quatro de anos de uma relação
conflituosa, mas não pouco criativa: Júlio II deixou de pagar-lhe por quase um
ano, dada a 'lentidão do trabalho', e chegou a agredir Michelangelo a golpes de
bengala. Michelangelo foge de Roma, e o Papa pede-lhe desculpas, pagando-lhe, o
que o faz retornar aos trabalhos. (Na ilustração, uma pequena amostra da
complexidade das cenas retratadas e da composição da pintura do teto da
Capela).
Nada disto impediu o artista de criar um dos
mais impressionantes monumentos da fé católica. O conjunto das figuras e das
cenas gira em torno ao Antigo Testamento. São nove cenas do Gênese, desde a
Criação do Mundo até a Embriaguez de Noé. A única exceção ao tema
bíblico são as Sibilas, personagens advinhatórias da Grécia antiga. Todas as
figuras habitam um cenário composto por uma simulação de elementos de
arquitetura. Arcos, cornijas e colunas pintadas dividem as cenas e organizam
cada narrativa.
A Criação de Adão
Uma das mais
conhecidas (e reproduzidas) passagens das pinturas do teto da Capela Sistina.
Deus é ativo, seu corpo tensionado tende em direção a Adão, apontando com a
dádiva do espírito. Adão é passivo, está reclinado sobre a terra, sua mão
esboça um gesto em direção ao Criador. O formato curvílineo de seu corpo é
a exata contrapartida formal da curvatura do corpo de Deus. A anatomia dos
corpos é perfeita, porém exagerada, criando um gigantismo de proporções,
típico do artista.
Uma infinidade de
sentimentos perpassam pelo rosto do extasiado Adão. Um misto de admiração e
respeito, que amplificam a a sua passividade e impotência. Os olhos fixos no
Criador aguardam com reverência o toque de Sua mão. Estas mãos são, ao lado
da Última ceia de Leonardo, talvez a obra mais reproduzida da história
da arte. Impressionante momento, Michelangelo soube plasmar, em um único
ícone, toda a carga espiritual e expressiva da passagem bíblica. Deus ainda
não tocou Adão, e este minúsculo espaço que existe para a concretização da
existência da raça humana, hiato entre o ser e o não ser, concentra toda a
energia do nosso anseio de existir.
O Juízo Final
Michelangelo inicia a
pintura deste mural por volta de 1536 e o conclui em 1541, a pedido do Papa
Paulo III. Nesta época, um profundo pessimismo descia sobre a Europa motivada
pelas desavenças religiosas provocadas pelo nascente movimento Protestante e
pela Contra-Reforma. Embora detenha um impacto expressivo e espiritual intenso,
a pintura foi minuciosamente planificada. Três estágios são segmentados. Um
primeiro, mais elevado, onde estão o Cristo juiz e os eleitos, um segundo,
intermediário, onde estão os anjos anunciando os acontecimentos, tocando com
fúria trombetas. E um terceiro, inferior, onde estão as almas dos danados, e
onde se iniciam os suplícios.
É a descrição de
um momento terrível para o cristão. Cristo não é conciliador. Seu gesto, de
mão espalmada para o alto, é imperioso na condenação dos pecadores. Nenhuma
outra figura, com exceção de Maria, ousa aproximar-se e, mesmo ela, parece
desviar os olhos da cena tremenda. Todos os santos apresentam os instrumentos
com os quais foram supliciados, o que, na tradição iconográfica medieval,
servia para identificá-los, mas, também, é uma comprovação da sua fé
naquele momento e um testemunho na acusação do julgamento.
A representação do
Salvador é totalmente iconoclasta. Michelangelo abandona um cânone da
representação de Cristo como uma figura de barbas, totalmente incomum, tanto
nas pinturas anteriores como depois dele também. A representação da figura
lembra muito mais a de um deus grego, Apolo talvez. Jesus foi pintado por
Michelangelo nú, sendo posteriormente considerado pagão e indecoroso, foi
'vestido' por um artista chamado Daniel Volterra.
A camada
intermediária, além dos anjos com trombetas, apresenta uma série de almas que
se elevam, amparadas pela ajuda dos eleitos, enquanto que outras decaem,
arrastadas por figuras demoníacas. A última seção, inferior, apresenta tons
esverdeados, pútridos, das carnes desfeitas daqueles que já se diluem na
terra. À direita, um barco parte, carregado das almas perdidas. É uma obra
lancinante, um testemunho da intensidade mística do texto bíblico, assim como
da genialidade de seu criador.
A Barca de Caronte
Michelangelo
baseou-se em grande parte na Divina Comédia de Dante para realizar seu
afresco. Segundo a mitologia, Caronte era o condutor da barca que conduziria os
pecadores ao inferno. Michelangelo retrata-o como Dante o fez, no momento em que
golpeia os danados. Michelangelo deu forma humana aos demônios, mas introduziu
também orelhas pontudas, garras e patas, relembrando as antigas tradições
medievais.
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