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Kandinsky é um dos artistas mais importantes na total
reformulação que a arte sofre no início do século XX. Pode ser considerado
um dos pais da arte abstrata, juntamente com o holandês Piet Mondrian e o russo
Casimir Malevich. Foi não apenas um artista atuante, sendo um dos mentores das
chamadas vanguardas artísticas, mas também um importante teórico e produtor
cultural.
Nascido em Moscou, no dia 4 de dezembro de 1866, formou-se
em direito, profissão que abandonaria aos 30 anos para dedicar-se inteiramente
à pintura. Após a separação dos pais em 1871, passou a ser criado por uma
tia. Suas agudas sensibilidade e imaginação foram profundamente marcadas na
infância pelos contos folclóricos russos e alemães que esta tia lia para ele.
Outros dois fatores vão influenciar intensamente sua
sensibilidade artística durante a juventude. Em 1889, aos 23 anos, realizando
um trabalho de pesquisa para a Sociedade das Ciências Naturais, Etnográficas e
Antropológicas, entra em contato com a intensamente cromática cultura
campesina russa. A profusão de cores no mobiliário e nas vestimentas dos
camponeses vai lhe dar a impressão de caminhar dentro de uma pintura viva. Em
um quadro de 1907, A vida colorida (ao lado), vemos como sua imaginação ficou
marcada por este período.
Outra experiência da juventude cuja influência vai
perdurar por toda a sua vida foi o contato com a ópera do compositor Richard
Wagner. Ao assistir Lohengrin no Teatro Real de Moscou, Kandinsky tem
pela primeira vez a vivência concreta da sinestesia, isto é, a
percepção das íntimas relações sensoriais entre sons e cores, entre música
e pintura. Ouvir uma nota musical para ele era ter, simultaneamente, a
sensação de uma cor específica. A correspondência entre notas musicais e
cores era tão precisa que poderia, inclusive, permitir a tradução de
pinturas em partituras e vice-versa.
Abstração
Aos 30 anos, Kandinsky abandona a promissora carreira
universitária em Moscou e muda-se para Munique, juntamente com sua jovem esposa
e prima, Anya Chimiakin. Na efervescente metrópole alemã, procura ansiosamente
obter os conhecimentos técnicos de arte que sentia carecer. Sob a influência
do Impressionismo e da recém criada Jugenstijl (Art Nouveau, arte
nova), matricula-se em vários cursos e participa da vida cultural bávara.
Em 1901, funda com outros artistas a Phalanx, uma
associação de artistas. Através desta associação, organiza diversas
exposições, onde apresenta as obras de arte mais modernas da Europa, de
diversos artistas da Art Nouveau, do Simbolismo e Impressionistas. Até 1904
foram organizadas 12 mostras de arte sem que, entretanto, suas próprias obras
recebessem da crítica mais do que uma indiferença hostil. Dos escombros da
Phalanx restaram apenas alguns amigos e Gabriele Münter, uma ex-aluna e também
pintora, com quem Kandinsky manterá uma estreita ligação após a dissolução
de seu casamento.
De 1904 a 1909 vive e trabalha com Gabriele. Participa de
diversas exposições, principalmente em Paris, onde entra em contato com o Fauve
e o Cubismo. Em 1909 compra uma casa na pequena Murnau, e seu estilo revela a
influência fauve, na escolha das cores vibrantes e nas grandes áreas coloridas
com pouca ou nenhuma modulação tonal. Lê, nesta época, a fundamental tese de
doutoramento de Wilhelm Worringer, Abstraktion und Einfühlung (Abstração
e Empatia), de 1907, considerada a primeira (e mais importante) elaboração
teórica sobre a validade estética da arte abstrata.
A tese de Worringer sobre a arte abstrata parte da
análise das relações entre o ser humano e a natureza. O autor afirma, grosso
modo, que há duas grandes tendências na experiência humana no confronto com o
mundo natural. Uma, pacífica, vê na natureza a fonte tranqüila dos recursos
vitais. A natureza é a Grande Mãe que tudo dá, e com ela o ser humano
desenvolve uma empatia que se revela através de uma arte que reproduz
com maior ou menor justeza o que se vê no mundo natural. A segunda tendência,
ao contrário, é conflituosa. A natureza é fonte, principalmente, de
apreensões e de temores. O ser humano vive sacudido pelo pânico de ser
devorado por algum animal ou lançado aos ares por algum cataclismo. A arte que
este ser humano produz é uma arte que nega o mundo natural, que se afasta dele
através da abstração.
Kandinsky amplia, então, a sua intuição de que a arte,
para ser esteticamente válida, não necessita do motivo natural, isto é, que
uma arte significativa pode ser realizada também através do abstrato.
Outro golpe importante na concepção de arte como
reprodução de um objeto vem das leituras que Kandinsky realiza sobre tratados
ocultistas, especialmente os da Sociedade Teosófica, fundada pela russa Helena
Blavatsky. Assim como o artista Mondrian também proporá, Kandinsky vê no
abandono do objeto pela pintura uma outra forma de se buscar a essência das
coisas por trás das aparências. Para Kandinsky, ao invés de mediar seu
espírito através do objeto representado, o artista deve utilizar-se da forma e
da cor abstratas para revelar, diretamente, sua necessidade interior.
A partir de 1909, Kandinsky passa a dividir sua produção
pictórica em três grupos distintos. O primeiro grupo, Impressões,
guardaria referência ainda a um motivo naturalista. O segundo grupo, Improvisações,
pretendia ser o reflexo de um emoção espontânea. O terceiro grupo, Composição,
o grau mais elevado de complexidade, onde as Improvisações seriam articuladas
de forma mais completa. A linguagem musical utilizada por Kandinsky não era
casual, mas sim intencional. Ele via a música como a mais formal das artes,
isto é, aquela onde o ritmo e a tonalidade seriam apresentadas de maneira mais
pura. (ao lado, Improvisação nº. 7, 1910, óleo sobre tela, 131x97 cm, Tretyakov Gallery,
Moscou).
Esta evolução de Kandinsky revelou-se em diversas
participações em exposições artísticas, mas recebeu da crítica uma
acolhida extremamente hostil. Chegaram a afirmar que suas pinturas só podiam
ser obra de um louco ou de um "viciado em morfina ou haxixe". Mesmo a Nova
Associação dos Artistas de Munique (NKVM), co-fundada por Kandinsky em
1909, vai impedir a participação de um de seus trabalhos em uma exposição de
1911.
Com a separação da NKVM, Kandinsky funda o movimento Der
Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul) em 1911, juntamente com vários
outros artistas, entre os quais Franz Marc e Gabriele Münter. A primeira
exposição do movimento em 18 de dezembro daquele ano, contaria com a
publicação da primeira obra teórica de Kandinsky, Do espiritual na arte,
onde o artista expõe as razões estética de seu trabalho. O Cavaleiro Azul
representou a ruptura completa com a representação do objeto na pintura. A
forma e a cor emancipam-se da figura e desvelam a autêntica carga espiritual
que as motivou.
"Necessidade interior"
O livro Do espiritual na arte é uma suma das
idéias estéticas de Kandinsky. O ponto de partida de sua concepção
artística é a visão profética da vida espiritual da humanidade. O artista
compara o momento espiritual da sociedade a uma pirâmide, onde a base
representa o que há de mais material e o ápice o que há de mais espiritual. A
base avança lentamente na direção de seu ápice, isto é, tornando-se mais e
mais despojada de sentimentos mesquinhos e materialismo, alcançando com muito
esforço o que o ápice da pirâmide vivenciava ontem. Os que ocupam o ápice da
pirâmide, ao contrário, são poucos, algumas vezes resumem-se a apenas um ser
humano que, incompreendido pela maioria, é responsável por fazer avançar toda
a humanidade.
Neste sentido, a atividade criadora artística tem uma
conotação messiânica, uma função de revelar à maioria da humanidade os
novos parâmetros do progresso espiritual. Era assim que Kandinsky concebia a
atividade artística que elaborava o abstracionismo. Para ele, "todo aquele
que mergulhar nas profundezas da sua arte, à procura de tesouros invisíveis,
trabalha para elevar esta pirâmide espiritual, que alcançará o céu". (Do
espiritual...).
A maneira que tem o artista de alcançar a alma de cada
forma e de cada cor, bem como de cumprir seu papel messiânico no progresso
espiritual da humanidade é seguir o "guia infalível", a necessidade
interior. Esta é composta de três componentes:
- Elemento da personalidade, o que é próprio de cada artista, enquanto ser
criador.
- Elemento próprio de cada época, da cultura de um povo.
- Elemento artístico puro e eterno, que é próprio da Arte.
Destes três componentes, o mais importante é, para
Kandinsky, o terceiro. Mas ele não fala da arte enquanto atividade cultural
humana mas, sim, enquanto produto elevado do espírito. Kandinsky chega mesmo a,
explicitamente, criticar as teorias da arte pela arte, isto é, aquelas
teorias que vêem na arte como uma atividade auto-compensatória, que se
justifica por si mesma. A Arte com "A" maiúsculo de Kandinsky é uma
expressão do Espírito.
Sendo assim, ao contrário do que possa parecer, a necessidade
interior não corresponderia a uma vontade pessoal do artista, ou à
expressão de seus sentimentos íntimos ou de seu ponto de vista pessoal. A
componente final e última da razão da criação seria, na verdade, um
componente espiritual objetivo, cuja origem não se encontra no artista
mas, sim, em teorias místicas e religiosas. Ao artista caberia sintonizar-se
com este princípio e, a partir dele, buscar as melhores formas e cores com os
quais o traduzir.
Linguagem visual
Na origem desta concepção está a idéia de que as cores
e as formas pictóricas exercem uma intensa ação psíquica. A pintura
pode fazer vibrar intensamente o espírito evoluído e a harmonia das cores
"baseia-se exclusivamente no princípio do contato eficaz". Sendo
assim, Kandinsky dedica-se a expor uma verdadeira linguagem das formas e das
cores, onde cada cor e forma é estudada em seus possíveis efeitos sobre a
alma.
A maior parte de seu Do espiritual na arte é uma
tentativa de produzir um dicionário das formas e cores a partir de seus
significados espirituais. A cor, por exemplo, é analisada a partir de quatro
variáveis (quatro sons, diz Kandinsky):
- o calor ou o frio da cor, que são traduzidos empiricamente pela
tendência geral da cor em dirigir-se para o amarelo (quente) ou para o azul
(frio)
- a claridade ou a obscuridade da cor
O par amarelo e azul produz dois movimento gerais, um horizontal
e outro excêntrico/concêntrico. No movimento horizontal, o amarelo realiza um
deslocamento psíquico da cor em direção ao observador (corporal) enquanto que
o azul, ao contrário, realiza um deslocamento do espectador em direção à cor
(espiritual). Por outro lado, o amarelo é responsável por produzir um
movimento excêntrico, isto é, de distanciamento de seu próprio centro
enquanto que o azul realiza movimento diverso, em direção ao seu próprio
centro (concêntrico).
Subseqüentemente, em seu Do espiritual na arte,
Kandinsky passa em revista todas as outras cores do espectro, declarando suas
componentes psíquicas, em função das quatro variáveis iniciais.
Kandinsky professor
Após seu período heróico, onde formula teórica e
artisticamente o abstracionismo na arte, Kandinsky atravessa por várias fases
de vida e de criação bastante conturbadas e frustrantes.
Durante a 1ª Guerra, volta à Rússia e participa
ativamente da reconstrução cultural durante os primeiros anos da Revolução.
Kandinsky desenvolveu atividade docente, envolvendo-se na constituição de
diversos institutos de arte russos, entre os quais o NARKOMPROS (Comissariado do
Povo para a Formação Cultural) e o INChUK (Instituto de Cultura Artística).
Ele pesquisou as relações entre a psicologia da percepção e a teoria das
cores. Estas experiências seriam a base de seu ensino posterior na Bauhaus
alemã. (ao lado, Em cinza, 1919, óleo sobre tela, Musée National d'Art Moderne, Centre Georges
Pompidou)
Entretanto, sua tendência espiritual de
compreender a arte logo entra em choque com a visão materialista dos artistas
formalistas e construtivistas. Estes viam no simbolismo e misticismo de
Kandinsky um retrocesso romântico no progresso alcançado pela arte no século
XX. Seu ensino baseado na análise psíquica das formas e cores elementares era
recusado pelos construtivistas que salientavam a análise minuciosa dos
materiais e um cuidado no ordenamento construtivo dos mesmos. O crescente
isolamento e a influência determinante do partido Bolchevista sobre a política
artística em 1922 leva-o a abandonar a Rússia e retornar à Alemanha.
Aceita o convite de Walter Gropius e ingressa como
professor na Bauhaus em Weimar, no atelier de pintura mural. O corpo docente
desta prestigiosa escola de arquitetura e arte aplicada era constituído por
alguns dos mais destacados artistas da época. Kandinsky logo vai desenvolver um
alentado programa de ensino, cuja suma é publicada por ele no livro Ponto e
linha sobre o Plano.
Sua teoria das cores permanece a mesma que fora publicada
no Espiritual na Arte, mas a teoria das formas é sensivelmente ampliada,
com uma análise bastante completa das formas básicas e de suas relações.
Procura as ressonâncias espirituais para aquilo que chamamos de ponto e linha,
seu dinamismo peculiar, mantendo como uma constante suas preocupações iniciais
em estabelecer um paralelo com a música. Estuda as tensões que se estabelecem
sobre o plano e como este, aparentemente neutro, influencia os efeitos que se
obtém com uma composição.
Paralelamente à atividade didática, sua pintura
altera-se, com a utilização de um vocabulário mais geométrico. As manchas
coloridas dos quadros anteriores são substituídas por círculos e linhas
desenhados com precisão matemática. Para muito críticos e autores este é um
período de refluxo criativo de Kandinsky. Estes teóricos ressentem-se do
abandono pelo pintor das formas livres e expressivas dos primeiros anos do
abstracionismo e vêem na forma geométrica utilizada uma carência de
espontaneidade e imaginação. (ao lado, No azul, 1925, óleo
sobre cartão, 80x110 cm, Kunstsammlung Nordrhein-Westafalen, Dusseldorf).
Os últimos anos
A destituição da Bauhaus em 1933 pelo regime nazista
provoca uma debandada dos artistas para outros países. Kandinsky vai abrigar-se
em Paris, onde permanece até o final da vida em 1944.
Sua pintura destes últimos 11 anos sofre uma nova guinada
estilística. Inicia uma fase que os críticos chamam de biomórfica.
Suas telas são povoadas de figuras que lembram seres microscópicos,
protozoários e embriões, deslocando-se em grande agitação sobre a
superfície da tela. (ao lado, Composição X, 1939, óleo
sobre tela, Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen).
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