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Banner O emocional na arte

JOÃO WERNER, autor

A opinião de que a arte é manifestação da emoção humana floresce no senso comum. Esse privilégio deu-se não porque tenha a arte obtido um aumento de crédito junto à grande coletividade, mas porque a emoção tornou-se o filtro com que a cultura de massa olha para si e para seus produtos.

Embora seja uma espécie de background cultural, há uma grande contradição envolvendo a idéia da arte em relação à emoção, tomada pela ótica do senso comum. Contradição que se torna mais evidente quando se compara esta idéia em relação às múltiplas outras aplicações do epíteto emocional, especialmente no que tange a seu emprego para a estimulação do consumo.

A emoção sugerida e veiculada junto ao consumo volta-se para a esfera da satisfação pessoal, à promessa de prazer que acompanharia a posse. Pode-se falar que, para o consumo, há uma ampliação do âmbito da expectativa em relação ao âmbito da experiência possível. Espera-se algo sempre além daquilo que se possui.

Revertem-se os pólos. A experiência acessível fica dependente das expectativas criadas, haja visto que se se estabilizasse um âmbito experiencial qualquer, reduziriam-se as expectativas, reduzindo-se a demanda de consumo.

A emoção, contemporaneamente, está associada ao novo, à moda. O novo, filho da indústria, reveste-se da estética para agradar, tornar-se objeto de desejo. Superficialmente admirável, o novo cria a esfera da experiência que sempre está mais além.

O choque perceptivo, que em princípio do século era o mote estético das vanguardas artísticas, foi absorvido pela indústria do novo e, desde então, é tão conjugado que chega hoje à anestesia. A emoção ofertada é imediata, passageira porque descartável, intensa porque competitiva.

Se apreender a arte é obter dela um lampejo emocional, de acordo com a visão comum, como compatibilizar Rembrandt com refrigerante, Grünewald com o último tipo do automóvel?

Arte e o novo

Ver a arte como manifestação das emoções é lançar-se a grandes contradições. Se podemos afirmar que há progresso na história da técnica, que há desenvolvimento na ciência, que há uma história da moda, o mesmo não se dá com a emoção na arte.

Contrariamente, esta relação não se insere numa linha contínua de superação de estágios anteriores. O valor emocional de uma obra de arte recente não é maior ou menor que o de uma obra antiga, apenas por ser mais atual. Obras de arte, novas ou antigas, são igualmente admiráveis independentemente de sua novidade.

De outra forma, a obra de arte não se insere num horizonte de expectativas como a moda, mas num plano contíguo de experiência. Contrariamente à moda que transforma o âmbito da experiência num âmbito de expectativas, a arte faz com novas expectativas um campo de experiência atual: transforma o meramente possível em realidade visual, ao alcance da apreensão.

A base emocional que é compartilhada por arte e moda no senso comum não é unívoca. Intencionam apreensões sensíveis completamente contraditórias, levando consigo, para campos opostos, as possíveis emoções a elas associadas.

Um trato mais sério com a arte supõe, por tudo isso, um cuidado crítico ao ver na arte uma mera manifestação de emoções. Negligenciar este ponto é confundir, como o senso comum, arte com moda, Van Gogh com dentifrício, emoção e verdade com "emoção para valer".

Abandonando o filtro redutor do consumo, que busca sempre aplainar e homogeneizar para ampliar a abrangência, é possível redimensionar verticalmente a interseção da arte e da emoção.

Inaceitável é, por exemplo, para a moda, a densidade e o comprometimento emocional do artista com sua obra. Contrariamente ao usual, a relação do artista com sua obra é uma via de mão única, sem retorno. Lançar-se a um precipício, sem garantias de sucesso, é uma atitude pouco louvável no mercado.

Se nós pretendemos abordar a arte pela via do emocional, é preciso considerar a incompatibilidade de que se revestiram as vidas de inúmeros artistas, ditadas pela via do emocional. É preciso considerar o trágico suicídio de Van Gogh, o banimento de Goya ao final da vida, a solidão de Rembrandt, a contrariedade de tantos.

O emocional na arte é, freqüentemente, de um gosto amargo, quase intragável.

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