Conceito estético do "Trágico"

© Texto de João Werner


A tragédia dos eventos do mundo real dificilmente pode ser fonte de prazer.

Mas na arte, a tragédia é a representação de acontecimentos que provocam a piedade e o terror, assim como o prazer estético.

Aristóteles via na arte trágica o ápice da atividade artística, pois possibilitava o surgimento dos sentimentos mais nobres e elevados.

Não é o sofrimento que faz o personagem ser trágico mas, sim, a grandeza de seus atos em resposta aos eventos desditosos. Isto é, o herói trágico não responde aos castigos do destino com vileza ou fuga.

Por isto, embora o personagem trágico possa causar sofrimento a outrem, não é ele totalmente culpado pelos seus atos. Se assim fosse, seria apenas um vilão.

Para os autores gregos, a origem da tragédia era, normalmente, a ação dos deuses, que interferiam na vida dos seres humanos, para o bem ou para o mal. Ou, também, o acaso, que colocava o herói trágico em posição de fazer escolhas difíceis.

Na tragédia grega "Édipo Rei", de Sófocles, por exemplo, o personagem trágico, Édipo, tenta fugir de seu terrível destino que, para seu infortúnio, se cumprirá inexoravelmente. É profetizado que Édipo matará o próprio pai e se casará com a própria mãe. O final da peça é de grande comoção e tristeza, pois o herói cumprirá a profecia, mesmo que tenha tentado, de todas as formas, fugir de sua sina.

Como uma tentativa de expiação, após saber da verdade acerca de seus atos, Édipo mutilará a si mesmo, cegando-se. Édipo poderia ter se esquivado de seus crimes, de modo vil, fugindo ou ignorando-os. Mas, ao contrário, com nobreza, Édipo aceita as conseqüências de seu destino.

Para Aristóteles, a tragédia deveria descrever acontecimentos da vida de pessoas de alto nível social, tais como os reis, os deuses ou os heróis. Além disso, a narrativa deveria ser escrita com uma linguagem elevada, sóbria e engrandecedora, não vulgar. Por fim, na tragédia, os acontecimentos deverão ser desenvolvidos até a sua conclusão triste.

Atualmente, usamos o conceito de tragédia de um modo muito mais amplo e genérico, aplicando-o a objetos culturais que teriam sido recusados por Aristóteles. Da definição original aristotélica, mantivemos apenas a necessidade da descrição de um final (ou situação) triste. Todo o mais tornou-se cambiável.

Assim, falamos da "tragédia da Copa", por exemplo, quando a seleção brasileira foi goleada pela Alemanha por 7 x 1. É um evento de final triste, porém, em que a maioria dos personagens envolvidos comportou-se sem nenhuma nobreza.

Ou, por outro lado, usamos o termo tragédia para nos referirmos a acontecimentos terríveis da vida cotidiana. Tais usos, entretanto, não são estéticos.

Exemplos de obras culturais trágicas


Géricault, 1819, "A jangada do Medusa", óleo sobre tela, Louvre.
O artista retrata o resgate dos tripulantes do navio Medusa, à deriva por vários dias após o naufrágio . A tripulação havia fugido nos botes salva-vidas, abandonando todos à deriva. Consta que, para alimentar-se, haviam praticado o canibalismo.
Cartaz do filme Titanic
O filme "Titanic" conta a estória dramática de um amor interrompido pelo trágico naufrágio do navio no mar do norte.
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