Breve introdução à Estética

© Texto de João Werner


O ser humano pode ter, ao menos, 5 atitudes distintas em relação aos objetos e eventos de sua existência cotidiana:

  1. atitude cognoscitiva
  2. atitude prática (ou funcionalista)
  3. atitude personalista
  4. atitude moral
  5. atitude estética

A primeira atitude é a cognoscitiva. Podemos defini-la como a atitude de identificar e catalogar os objetos, isto é, saber o que é o objeto e como se relaciona a outros objetos.

Sendo assim, a pergunta feita por alguém com esta atitude é: "o que é este objeto?".

A atitude cognoscitiva é a mais importante na vida cotidiana. É a base da cultura. O fundamento mental desta atitude é a coleta da informação e o seu armazenamento pela memória. Tanto a memória pessoal quanto a memória registrada em livros ou, mais recentemente, através do computador.

A segunda atitude é a prática ou funcionalista. Podemos defini-la como o interesse pela utilidade (funcionalidade) dos objetos (ou eventos). A pergunta que é feita nesta atitude é "para que serve este objeto?".

A preocupação com a utilidade dos objetos (ou eventos) é uma das mais importantes na experiência cotidiana. É a base da ação produtiva, desde que os objetos possam ser instrumentos auxiliares desta ação. Saber usar os objetos, apreender-lhes a função, exige boa parte do nosso tempo de vida.

A terceira atitude é a personalista. Esta atitude interessa-se pelo objeto (ou evento) naquilo em que o objeto possa ter algo a haver consigo próprio.
Alguém com esta atitude perante o objeto pergunta: "O que isto tem a haver comigo?", "Em que isto me afeta?".

Por exemplo, na peça teatral Othelo, de Shakespeare, o personagem principal, Othelo, vive uma situação de dúvida quanto à fidelidade de sua esposa, Desdêmona. A atitude personalista, neste caso, poderia ser exemplificada por alguém que, assistindo a esta peça, ao invés de apreciar a encenação artística, aborrece-se, imaginando ver um paralelo entre o enredo e sua própria vida pessoal.

A quarta atitude possível diante dos objetos é a moralista. Esta atitude pergunta acerca do objeto (ou evento): "Isto é correto?" ou "Isto é adequado?". Nós aplicamos nosso quadro ético de "certos e errados" ao objeto, em busca de enquadrá-lo em uma taxionomia das coisas que consideramos boas e más.

Cena do filme Amadeus
Cena do filme "Amadeus", onde aparecem Mozart (à esq.) e Salieri.
fonte: Wikipedia.

Por exemplo, o filme Amadeus, de Milos Forman, ilustra, de maneira fictícia, uma contradição entre a atitude moral e a atitude estética de alguém. O filme retrata o encontro entre o grande maestro e compositor italiano Salieri - retratado como um indivíduo de moral rigorosa - e o genial Mozart, a quem Salieri dedica uma intensa admiração.

Porém, para o desespero de Salieri, no filme, Mozart é alguém totalmente devasso, radicalmente contrário aos padrões morais de Salieri. A partir daí, altera-se a atitude estética de Salieri que, de um admirador extasiado, passa a ser um inimigo de Mozart, por quê, a seus olhos, alguém tão devasso não poderia ser agraciado com um talento tão desmesurado.

A atitude estética

A atitude estética é diversa das quatro atitudes vistas anteriormente. Esta atitude também é denominada, na literatura especializada, de apreciação.

Por exemplo, a atitude estética não é prática, ela não tem qualquer função. Não há uma finalidade que se alcance praticando a apreciação. Diz-se, por isso, que a apreciação é uma finalidade em si mesma.

Às vezes, ocorre até mesmo do aspecto estético de um objeto interferir com o seu aspecto funcional. Isto é, a ornamentação pode atrapalhar o uso. Abaixo, vemos uma espada shotel, abissínia. A curvatura da lâmina, bem como a profusão decorativa em sua superfície tornam-na uma arma mais decorativa do que funcional, pesada e de difícil manuseio.

Espada shotel
Espada "shotel", abissínia.
fonte: Wikipedia.

Por outro lado, a apreciação estética não decorre ou é ampliada por qualquer tipo ou quantidade de conhecimentos. Isto significa que alguém que conheça toda a história da arte não tem, teoricamente, uma apreciação mais qualificada do que alguém que fica, pela primeira vez, diante de uma obra de arte.

Ou, também, isso explica porque podemos ter apreciações de objetos dos quais não conhecemos o significado. Abaixo, vemos um dos mais fantásticos monumentos da Antiguidade, a "Esfinge". Nós não temos, hoje, qualquer idéia do que é esse monumento, nem o que foi em sua época. Entretanto, independentemente disso, nós podemos apreciar as suas qualidades estéticas e arquitetônicas, admirar sua ousadia criativa, etc.

Esfinge
"Esfinge", Egito antigo
fonte: Wikipedia.

Por outro lado, a apreciação estética não é personalista. No momento da apreciação, inclusive, há uma identificação entre o sujeito apreciador e o objeto apreciado. Alheios a nós mesmos, é como se suspendêssemos o nosso eu, abstraindo-nos, como em um devaneio. A apreciação estética é distraida, inclusive de si mesmo.

Por fim, a apreciação estética não é associada ou dependente de qualquer conjunto de juízos morais. Isto é mais evidente quando percebemos que podemos apreciar esteticamente um objeto cuja função ou significado é inaceitável para a moral vigente.

Abaixo, vemos uma das obras primas de Goya, o "Duelo a bordoadas". Trata-se de uma obra com um tema moralmente desprezível, violento, de duas pessoas matando-se a golpes de borduna. Mesmo assim, podemos apreciar a sua composição geral. Podemos apreciar, por exemplo, a grande habilidade do genial artista espanhol em criar o dinamismo das figuras, sua expressão de terror e a o mesmo tempo de agressividade.

Goya, Duelo a bordoadas
Francisco de Goya, "Duelo a bordoadas", óleo sobre tela, 123 x 266 cm., Museo del Prado, Madrid.

A estética na experiência cotidiana

Em nossa experiênca do dia a dia, são possíveis quatro diferentes modos de conceber a estética.

Em primeiro lugar, há uma estética praticada no dia a dia, indissociável da experiência de todos e que é usufruída nos prazeres dos sentidos.

É praticada quando ornamentamos o corpo, quando decoramos a nossa casa, quando escolhemos o que consumir imaginariamente na televisão.

Por exemplo, estas ocupações com a aparência do corpo têm, todas, um componente estético:

  1. corte (ou não) de cabelo
  2. uso de adereços tais como anéis, brincos, pulseiras, colares, tatuagens
  3. freqüentação de academias de ginástica
  4. escolha da roupa com que nos vestimos
  5. escolha do mobiliário de nossas casas
Noiva hindú
À revelia dos meios industrais, o ser humano sempre teve atenção para com sua aparência, embelezando-se.
"Noiva", 2007, fotógrafo: Prakhar Amba,
fonte: Wikipedia.
licença de uso: CC BY 2.0.
Homem andino
"Um homem dos andes em trajes tradicionais", 2007,
fotógrafo: Cacophony, fonte: Wikipedia.
Licença de uso: CC BY-SA 4.0.

A estética industrial

Em segundo lugar, há uma estética aplicada, a qual é decorrente da produção industrial. É voltada para a qualificação estética do produto de consumo. Visa agradar sensorialmente o consumidor, dar-lhe alimento imaginário, seduzi-lo.

São objetos próprios desta estética:

  1. desenho de embalagens
  2. desenho de móveis
  3. arquitetura

É totalmente dependente de pesquisa de opinião para mensurar o gosto prevalente entre seus consumidores. A escolha das cores, das formas, etc., é definida a partir de uma previsão entre o que mais irá agradar.


Um exemplo de embalagem ornamentada de sabão em pó da marca Omo. A função do produto não é alterada, mas o apelo visual é sem dúvida intenso e agradável.
fonte: OMO.
Eletrodomésticos Brastemp
Produtos para cozinha da marca Brastemp. Todos estamos habituados a "compor" as cores de nossos eletrodomésticos, combinando-os. O design do produto é, muitas vezes independente de suas funções.
fonte: Brastemp.

A estética da atividade artística

Em terceiro lugar, há uma estética da atividade artística, própria das obras da cultura - pintura, escultura etc. É uma estética não apenas da produção das obras de arte mas, também, da fruição delas. Esta estética pode, muitas vezes, ser experimental, propondo novos modos da sensibilidade.

Nós falaremos mais da estética da atividade artística na seção de artes plásticas. Cabe, aqui, ressaltar que as obras de arte, embora sejam, atualmente, o locus estético por excelência, nem sempre foram consideradas assim. Antes do século XX, as obras de arte existiam para cumprir com uma outra função, diferente da função estética. A função estética destas obras de arte era paralela à sua função principal. Elas eram (e são) muito apreciadas, mas não eram contratadas para serem apreciadas.

As pinturas das igrejas cristãs, por exemplo, por mais de mil anos tiveram a função principal de educar as pessoas iletradas acerca do texto bíblico. Muitas são belíssimas, mas esta beleza de algumas pinturas não era algo decisivo para a sua avaliação pelos medievais. Do mesmo modo os 3 mil anos de arte egípcia, ou toda a arte primitiva, por exemplo.

Retrato de Dom Pedro I
Simplício Rodrigues de Sá, "Dom Pedro I do Brasil", c. 1830, óleo sobre tela, Museu Imperial do Brasil.
fonte: Wikipedia.
licença de uso: domínio público.

Mesmo toda a arte pós-renascimento tinha a função explícita de representar uma pessoa ou um local. Representava o rei, a rainha, as amantes do rei, os filhos do rei, as vitórias do rei, os castelos do rei... Quando a fotografia é inventada em 1826, a arte perde esta sua função representativa, pois a fotografia é mais eficaz e mais barata do que a pintura em representar a realidade.

Neste momento histórico, as artes plásticas entram em uma grande crise. Elas só vão se recuperar e reencontrar o seu lugar na cultura ao compreender que sua principal função não é representar o mundo, mas oferecer um momento privilegiado para a apreciação. É assim que surge a arte contemporânea.

A estética filosófica

Finalmente, há uma estética filosófica, a qual tenta explicar aquelas outras experiências estéticas, dando sentido coerente e razoabilidade às diversas vivências e apreciações.

Em muitas obras filosóficas, tais como as de Platão, por exemplo, é possível encontrar passagens referentes ao que nós denominamos de apreciação estética. Outros sistemas tem partes explicitamente devotadas às artes ou à apreciação, tais como os de Aristóteles, Kant ou Hegel. Nesta seção deste site, apresentamos alguns resumos das principais posições destes filósofos.

Por outro lado, a própria atividade filosófica pode tornar-se fonte de prazer. Isto ocorre, por exemplo, quando apreciamos a beleza e harmonia na exposição de uma idéia em um texto filosófico.

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