A Estética e as ilusões visuais

© Texto de João Werner


Conta a lenda que o pintor grego Zêuxis pintava uvas com tal maestria que até mesmo os pássaros eram enganados, pois vinham bicá-las. Outro pintor grego, Parrásio, apostou que enganaria o rival. Convidou Zêuxis para visitar seu ateliê, onde estaria, em um canto da sala, um quadro, coberto por uma cortina, encostado em uma parede. Curioso para ver o quadro de Parrásio, Zêuxis aproximou-se e tentou levantar o tecido, quando percebeu que nem quadro nem tecido eram reais: ambos tinham sido pintados sobre a parede numa perfeita ilusão de ótica.

O olho está longe de ser um instrumento perfeito. A partir da ocorrência de poucos estímulos físicos concorrentes, pode-se levar a percepção de alguém a enganar-se no resultado de seu julgamentos. Os mágicos e prestidigitadores criam seus truques diante de nossos olhos e ... não os vemos. A mais venerável das ilusões é a criada pela própria pintura: em uma superfície de tecido coberta de tinta de várias cores pensamos ver uma paisagem, o retrato de alguém ou, mesmo, a revelação de intensas emoções.

Na prática, todos os aspectos da lógica da representação podem produzir ilusões quando devidamente elaborados. Nós escolhemos 6 destes aspectos para ilustrar como a visão pode ser ludibriada.

Ilusão de forma

Na ilustração abaixo temos dois conjuntos de linhas: um composto por vários raios de uma circunferência, outro composto por duas linhas vermelhas verticais. As linhas vermelhas parecem estar levemente curvadas para fora em seu centro. Quando separamos os dois conjuntos de linhas (clicando o botão separa), verificamos que as duas linhas vermelhas são, de fato, paralelas.

A disposição das linhas em preto expande o centro entre as duas linhas vermelhas.

Ilusão de grandeza

Na ilustração abaixo, as duas formas em meia lua parecem ter diferentes tamanhos. A forma em vermelho parece ser maior que a forma em laranja. Quando clicamos no botão reúne, vemos que as duas formas tem o mesmo tamanho.

Ilusão de movimento

Na ilustração abaixo, as colunas de círculos em azul e preto parecem se locomover da direita para a esquerda, alternadamente. O que ocorre é que nós temos 13 colunas de círculos onde cada coluna muda de cor seqüencialmente, causando a impressão de deslocamento. Se tornarmos a alteração de cor mais lenta (clicando sobre o botão mais lento), ficará mais fácil perceber como as cores vão se alternando nas colunas.

Este princípio é similar ao utilizado no cinema, onde uma série de imagens imóveis com pequenas diferenças entre si são seqüencialmente apresentadas ao observador e, dada a velocidade de sua apresentação, nosso olho pensa ver uma única imagem com movimento.

Ilusão de movimento e profundidade

Na ilustração abaixo, quando clicando no botão sem sombra, vemos a esfera realizar um movimento lateral da esquerda para a direita sobre o tablado xadrez. Quando clicamos sobre o botão sombra lateral, uma sombra projetada sobre o tablado acompanha o movimento da esfera, acentuando o seu movimento lateral.

A ilusão ocorre quando clicamos no botão sombra diagonal. Com o novo movimento da sombra, a qual vai de um canto a outro do tablado, em diagonal, temos a sensação de que a esfera faz um movimento também em diagonal, indo do canto esquerdo próximo ao canto direito distante. Entretanto, se prestarmos atenção, veremos que a esfera continua a fazer o mesmo movimento em todas as três situações. A presença do movimento da sombra diagonal é que nos ilude quanto ao real movimento da esfera.

Ilusão de tonalidade

Esta é uma ilusão baseada no contraste de tonalidades. Quando justapostas duas tonalidades diferentes, uma tonalidade irá influenciar a percepção da outra tonalidade. A que é mais escura (por exemplo), parecerá mais escura ainda, enquanto que a tonalidade mais clara dará a impressão de ser mais luminosa. Este efeito chama-se contraste simultâneo. Abaixo apresentamos uma ilustração de como este efeito ocorre.

Observando a ilustração acima vemos dois conjuntos de faixas verticais, um em preto, outro em branco. Superpostos a estas faixa verticais, vemos um grupo de anéis ovais em duas tonalidades de cinza diferentes. A metade superior dos anéis é em um tom de cinza mais escuro; a metade inferior é de um cinza mais claro.
Quando separamos as faixas verticais dos anéis (clicando no botão separa), percebemos que os anéis são de uma única tonalidade. A ilusão ocorre porque quando os anéis estão superpostos às faixas verticais pretas, eles parecem mais claros do que de fato são. Quando superpostos às faixas verticais brancas, eles parecem mais escuros. A tonalidade dos anéis não muda, o que muda é a percepção que temos deles.

Ilusão de cor

As ilusões de cor são brilhantemente demonstradas por Israel Pedrosa em seu livro Da cor à cor inexistente. O exemplo abaixo, inspirado naquele autor, reúne dois elementos visuais distintos; um conjunto de faixas verticais azuis e amarelas alternadas e um losango vermelho. Observadas juntas, o losango parece ser constituído por dois tons de vermelho, um mais escuro acima e outro mais claro abaixo. Entretanto, quando separamos os dois conjuntos (clicando no botão separa), verificamos que o losango é de um único tom de vermelho.

A ilusão aqui é denominada de contraste simultâneo de cores. As cores influenciam-se mutuamente em nossa percepção.

Um mestre da ilusão visual, Mauritis Escher

O artista holandês Maurits Escher (1898-1972) foi um mestre em manipular as regras que constituem a ilusão de perspectiva em uma pintura. Suas gravuras são construídas como um mundo impossível, mas cujas componentes são totalmente lógicas dentro do quadro geral da representação.


Na litogravura acima, Queda d'água (1961), depois de despencar sobre a roda de um moinho, a água percorre um canal em zigue-zague, o qual é um caminho para o fundo da composição e, ao mesmo tempo, um caminho para o alto. Ao final do canal em zigue-zague, a água estará de volta no ponto de origem, de onde cairá de novo sobre a roda do moinho em um movimento perpétuo e impossível (conforme pode ser visto na linha vermelha sublinhada sobre a gravura, ao lado).

Escher brinca com a regra da perspectiva visual que diz que um objeto - quando visto sobre o plano do chão - quanto mais longe estiver do observador, mais alto será visto no plano da superfície da tela. Na ilustração ao lado, vemos este princípio da perspectiva visual registrado pela fotografia de uma corrida. Uma série de corredores estão a várias distâncias do observador, alguns mais próximos, outros mais distantes. Sublinhamos a posição de três deles com linhas amarelas horizontais sob seus pés. Como se pode ver, quanto mais longe está o corredor de nós, mais alta está a linha amarela no plano da imagem.

Sem pretender ser o Mister M de Escher, podemos ver como parte desta mágica ocorre. Se Você observar atentamente no detalhe ao lado, verá que os dois conjuntos de pilares que sustentam o canal não são coerentes entre si. Eles se superpõem ao canal de um modo impossível de ocorrer na realidade. O pilar (assinalado pela linha vertical vermelha) está superposto à lateral direita do canal (em verde). Entretanto, contraditoriamente, o mesmo pilar é superposto pela mesma lateral direita (em amarelo) um pouco mais à frente.
Este é um recurso ilusionístico extraído das técnicas de representação renascentista que somente a maestria de um gênio como Maurits Escher poderia obter.

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