Conta a lenda que o pintor grego Zêuxis pintava uvas com
tal maestria que até mesmo os pássaros eram enganados, pois vinham bicá-las.
Outro pintor grego, Parrásio, apostou que enganaria o rival. Convidou Zêuxis
para visitar seu ateliê, onde estaria, em um canto da sala, um quadro, coberto
por uma cortina, encostado em uma parede. Curioso para ver o quadro de Parrásio,
Zêuxis aproximou-se e tentou levantar o tecido, quando percebeu que nem quadro
nem tecido eram reais: ambos tinham sido pintados sobre a parede numa perfeita
ilusão de ótica.
O olho está longe de ser um
instrumento perfeito. A partir da ocorrência de poucos estímulos físicos
concorrentes, pode-se levar a percepção de alguém a enganar-se no resultado
de seu julgamentos. Os mágicos e prestidigitadores criam seus truques diante de
nossos olhos e ... não os vemos. A mais venerável das ilusões é a criada
pela própria pintura: em uma superfície de tecido coberta de tinta de várias
cores pensamos ver uma paisagem, o retrato de alguém ou, mesmo, a revelação
de intensas emoções.
Na prática, todos os aspectos da lógica da
representação podem produzir ilusões quando devidamente elaborados. Nós escolhemos 6 destes aspectos para ilustrar como
a visão pode ser ludibriada.
Ilusão de forma
Na ilustração abaixo temos dois conjuntos de
linhas: um composto por vários raios de uma circunferência, outro composto por
duas linhas vermelhas verticais. As linhas vermelhas parecem estar levemente
curvadas para fora em seu centro. Quando separamos os dois conjuntos de linhas
(clicando o botão separa), verificamos que as duas linhas
vermelhas são, de fato, paralelas.
A disposição das linhas em preto expande o centro
entre as duas linhas vermelhas.
Ilusão de grandeza
Na ilustração abaixo, as duas formas em meia lua
parecem ter diferentes tamanhos. A forma em vermelho parece ser maior que a
forma em laranja. Quando clicamos no botão reúne, vemos que as
duas formas tem o mesmo tamanho.
Ilusão de movimento
Na ilustração abaixo, as colunas de
círculos em azul e preto parecem se locomover da direita para a esquerda,
alternadamente. O que ocorre é que nós temos 13 colunas de círculos onde cada coluna muda de cor
seqüencialmente, causando a impressão de deslocamento. Se tornarmos a alteração
de cor mais lenta (clicando sobre o botão mais lento), ficará mais
fácil perceber como as cores vão se alternando nas colunas.
Este princípio é similar ao utilizado
no cinema, onde uma série de imagens imóveis com pequenas
diferenças entre si são seqüencialmente apresentadas ao observador e, dada a
velocidade de sua apresentação, nosso olho pensa ver uma única imagem com
movimento.
Ilusão de movimento e profundidade
Na ilustração abaixo, quando clicando no botão sem sombra, vemos a
esfera realizar um movimento lateral da esquerda para a direita sobre o tablado
xadrez. Quando clicamos sobre o botão sombra lateral, uma sombra
projetada sobre o tablado acompanha o movimento da esfera, acentuando o seu
movimento lateral.
A ilusão ocorre quando clicamos no botão sombra diagonal. Com o novo
movimento da sombra, a qual vai de um canto a outro do tablado, em diagonal,
temos a sensação de que a esfera faz um movimento também em diagonal, indo do
canto esquerdo próximo ao canto direito distante. Entretanto, se prestarmos
atenção, veremos que a esfera continua a fazer o mesmo movimento em todas as
três situações. A presença do movimento da sombra diagonal é que nos ilude
quanto ao real movimento da esfera.
Ilusão de tonalidade
Esta é uma ilusão baseada no contraste de tonalidades. Quando
justapostas duas tonalidades diferentes, uma tonalidade irá influenciar a
percepção da outra tonalidade. A que é mais escura (por exemplo), parecerá
mais escura ainda, enquanto que a tonalidade mais clara dará a impressão de
ser mais luminosa. Este efeito chama-se contraste simultâneo. Abaixo
apresentamos uma ilustração de como este efeito ocorre.
Observando a ilustração acima vemos dois conjuntos de faixas verticais, um
em preto, outro em branco. Superpostos a estas faixa verticais, vemos um grupo
de anéis ovais em duas tonalidades de cinza diferentes. A metade superior dos
anéis é em um tom de cinza mais escuro; a metade inferior é de um cinza mais
claro.
Quando separamos as faixas verticais dos anéis (clicando no botão separa),
percebemos que os anéis são de uma única tonalidade. A ilusão ocorre porque quando os anéis estão superpostos às faixas
verticais pretas, eles parecem mais claros do que de fato são. Quando
superpostos às faixas verticais brancas, eles parecem mais escuros. A
tonalidade dos anéis não muda, o que muda é a percepção que temos deles.
Ilusão de cor
As ilusões de cor são brilhantemente demonstradas por
Israel Pedrosa em seu livro Da cor à cor inexistente. O exemplo abaixo,
inspirado naquele autor, reúne dois elementos visuais distintos; um conjunto de
faixas verticais azuis e amarelas alternadas e um losango vermelho. Observadas
juntas, o losango parece ser constituído por dois tons de vermelho, um mais
escuro acima e outro mais claro abaixo. Entretanto, quando separamos os dois
conjuntos (clicando no botão separa), verificamos que o losango é de um
único tom de vermelho.
A ilusão aqui é denominada de contraste
simultâneo de cores. As cores influenciam-se mutuamente em nossa
percepção.
Um mestre da ilusão visual, Mauritis Escher
O artista holandês Maurits Escher (1898-1972) foi um mestre em manipular as
regras que constituem a ilusão de perspectiva em uma pintura. Suas gravuras
são construídas como um mundo impossível, mas cujas componentes são
totalmente lógicas dentro do quadro geral da representação.
Na litogravura acima, Queda d'água (1961), depois de despencar
sobre a roda de um moinho, a água percorre um canal em zigue-zague, o qual é
um caminho para o fundo da composição e, ao mesmo tempo, um caminho
para o alto. Ao final do canal em zigue-zague, a água estará de volta
no ponto de origem, de onde cairá de novo sobre a roda do moinho em um
movimento perpétuo e impossível (conforme pode ser visto na linha vermelha
sublinhada sobre a gravura, ao lado).
Escher brinca com a regra da perspectiva
visual que diz que um objeto - quando visto sobre o plano do chão - quanto mais longe estiver do
observador, mais alto será visto no plano da superfície da tela. Na
ilustração ao lado, vemos este princípio da perspectiva visual registrado
pela fotografia de uma corrida. Uma série de corredores estão a várias
distâncias do observador, alguns mais próximos, outros mais distantes.
Sublinhamos a posição de três deles com linhas amarelas horizontais sob seus
pés. Como se pode ver, quanto mais longe está o corredor de nós, mais alta
está a linha amarela no plano da imagem.
Sem pretender ser o Mister M de Escher, podemos ver como parte
desta mágica ocorre. Se Você observar atentamente no detalhe ao lado, verá que os dois conjuntos de pilares que
sustentam o canal não são coerentes entre si. Eles se superpõem ao canal de
um modo impossível de ocorrer na realidade. O pilar (assinalado pela linha
vertical vermelha) está
superposto à lateral direita do
canal (em verde). Entretanto, contraditoriamente, o mesmo pilar é superposto
pela mesma lateral direita
(em amarelo) um pouco mais à frente.
Este é um recurso ilusionístico extraído
das técnicas de representação renascentista que somente a maestria de um
gênio como Maurits Escher poderia obter.
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