Conceito estético do "Grotesco"

© Texto de João Werner


O grotesco é a fina arte das esdrúxulas misturas.

Como um demiurgo, o produtor do grotesco toma partes de um ser misturando-as com partes de outros seres, obtendo um resultado totalmente anti-natural.

Cada parte é associada, por hábito, ao ser de onde foi retirada.

Frutas e legumes são objetos naturais, habitantes das feiras públicas onde são comprados para o consumo.

Mas quando alfaces, cenouras e beterrabas são organizados com formato de um rosto humano, como na obra do artista Arcimboldo (1527-93, italiano), então temos um objeto grotesco.

O grotesco é experimentado no sentimento como algo cômico, que muitas vezes causa riso, ou como algo estranho que amedronta e repugna.

Outra técnica de produzir o grotesco é através da ampliação exagerada de partes de um ser. A partir de um corpo humano, por exemplo, amplia-se partes de seus membros, em visível desproporção com o tipo ideal.

Um dos mais importantes artistas a trabalhar com a técnica grotesca nas artes plásticas foi Salvador Dali. Inclusive, o uso da grotesqueria era parte integrante da estratégia estética de causar estranhamento por parte do movimento Surrealista.

A atmosfera onírica que os surrealistas pretendiam era, muitas vezes, obtida através do grotesco.

Origens do grotesco

É uma palavra que se origina no italiano grottesco, que é derivado de grotta, cujo significado é gruta.

No século XIV, faziam-se escavações arqueológicas em Roma para resgatar o passado romano da cidade, valorizado novamente pelo Renascimento. Além de encontrar réplicas romanas de esculturas clássicas gregas, desencavou-se, também, muitos elementos decorativos incomuns, que causaram grande espanto.

Cabeças grotescas, Leonardo da Vinci
Leonardo da Vinci, "Cabeças grotescas", c. 1490, 26 x 20 cm. Royal Library, Castelo de Windsor, Londres.

Uma destas descobertas, o palácio Domus Aurea (Casa Dourada), do imperador romano Nero, chamou muito a atenção de todos pela decoração fantasiosa, ornamental, com elementos naturais misturados, sem nenhum estilo clássico. Artistas como Leonardo da Vinci visitaram, admirados, esta ruina em busca de inspiração.

O estilo grotesco espalhou-se, a partir do início do século XVI, da Itália para toda a Europa.

Posteriormente, especialmente na França do século XVII, a palavra grotesco passou a ser usada como um adjetivo, muitas vezes de conotação ridícula, antinatural e excessiva.

Com a ascenção do Neoclassicismo na Europa, ao final do século XVIII, o grotesco passou a ser um termo depreciativo, indesejado, desprezível, quase uma ofensa estética. Dizer que algo era grotesco era denunciar que este objeto não se coadunava com os valores de ordem, nobreza e clareza do período.

É com o Romantismo do século XIX, que o grotesco volta a ser apreciado, embora com uma conotação um tanto diferente do original Renascentista. Um exemplo é o livro "Frankenstein" (Frankenstein: or the Modern Prometheus), de 1816, da autora Mary Shelley, que narra a tentativa de um cientista em produzir a vida a partir da junção de várias partes de cadáveres. É uma estória de terror, com um fundamento estético grotesco.

Nos dias de hoje, o grotesco espalhou-se na cultura, especialmente no cinema, tendo sido assimilado amplamente.

Filmes tais como "A mosca" (Fox, 1986), por exemplo, podem ser considerados grotescos. O filme relata uma experiência científica que acaba mal, com a mesclagem do corpo do cientista ao corpo de uma mosca.

Alguns exemplos do grotesco


PINTURA: Arcimboldo, 1573, "Verão", óleo sobre tela, Louvre. Os rostos humanos são construídos pela junção grotesca de diversos vegetais e frutas.
Pintura de Salvador Dali
PINTURA: Salvador Dali, "A premonição da guerra civil" (1936), óleo sobre tela, 110 x 84 cm., Museu de Arte da Filadélfia, USA. O grotesco nesta pintura reside no rearranjo anti-natural dos membros humanos bem como na exagero de certas partes.
Harpia, desenho medieval
MITOLOGIA: A harpia era uma figura mitológica grega com corpo de águia e tronco e cabeça de mulher.
Imagem de: VINYCOMB, John, Fictitious & Symbolic Creatures in Art, 2012, Project Gutenberg.
Fauno de Francesco Mancini
MITOLOGIA: "Pan ensinando Dafne a tocar flauta", Cópia romana de uma escultura em mármore de Heliodoro, c. 100 a.C., Museu de Arqueologia de Nápoles.
Pan, era uma divindade grega cujo corpo era um mistura grotesca de homem e bode.
Interior da Gruta de Buontalenti
Interior da Gruta de Buontalenti
Gruta de Buontalenti, entrada
Entrada da "Grotta de Buontalenti", Palazzo Pitti, Florença.
Estas grutas eram construções artificiais, povoadas de seres mitológicos grotescos e tinham uma decoração cuja mistura de elementos fantásticos e incomuns era grotesca.
Fonte: Wikipedia.
Frontispício do livro Frankenstein
Capa do livro "Frankenstein", de Mary Shelley.
Autor da gravura Theodor von Holst (1810-1844).
Fonte: Wikipedia.
Cartaz do filme A Mosca
"A mosca", direção de David Cronenberg,
20th Century Fox, 1986.
fonte: Wikipedia.

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