Conceito estético do "Cômico"

© Texto de João Werner

O cômico é o que faz rir pela solução imprevista de uma tensão ou contraste. O riso surge quando há um descompasso entre a expectativa que temos por um desfecho em uma situação e a solução desta situação, a qual é pífia ou absurda.

O objeto cômico se recusa a comportar-se de um modo racional e esperado, agindo irracional e imprevistamente.

Um ser humano agindo como uma máquina é cômico, como o operário representado por Chaplin em Tempos modernos onde, ao terminar seu turno de trabalho, continua repetindo os mesmos gestos mecânicos que executa diariamente na linha de montagem.

Personalidades políticas são alvo constante do riso. Um candidato em campanha eleitoral, fotografado fazendo caretas ao comer um lanche é algo não esperado, e que torna-se cômico.

Introdução

O cômico é um adjetivo que aplica-se, indiferentemente, a um objeto, a uma situação ou a uma pessoa. O sentimento do sujeito, exposto ao objeto cômico, é revelado pelo riso. Isto é, o sentimento que alguém tem diante da beleza nem sempre é aferido diretamente mas, diante do cômico, este sentimento é explicitado, seja através de um sutil sorriso ou, mesmo, de uma sonora gargalhada.

Como todo objeto estético, o cômico pode ser descrito segundo algumas características formais, que o definem e estruturam. Entretanto, mais do que em todos os outros objetos estéticos, a contrapartida do sentimento do sujeito não é obtida, necessariamente, mesmo que estejam presentes todas as características formais do objeto cômico.

Por exemplo, duas pessoas podem contar uma mesma piada. A piada, que é o objeto cômico, é a mesma, entretanto, pode ocorrer de rirmos diante de uma apresentação da piada e não diante de outra. O senso comum diz "Fulano não sabe contar piadas" etc. Isso significa que, não apenas a piada deve corresponder a certas regras de produção do cômico mas, também, o ato de contar a piada deve ser estruturado comicamente.

Cartaz do filme Um morto muito louco
Cartaz do filme "Um morto muito louco"
"Weekend at Bernie's", 1989
Tom Kotcheff, diretor
20th Century Fox, distribuidora
fonte: Wikipedia.

Esta distinção conceitual fica mais evidente quando ocorre de uma situação que não é cômica ser contada de um modo cômico. A comédia "Um morto muito louco", por exemplo, conta a estória de dois funcionários de uma seguradora que descobrem que seu patrão foi assassinado. Para escaparem dos assassinos, ambos simulam que o morto está vivo. Os dois passam todo o filme carregando o defunto e agindo, para com ele, como se estivesse vivo. Evidentemente, a situação descrita pelo enredo é bizarra e macabra. Entretanto, o modo cômico em que é encenada torna o filme engraçado.

Por fim, mesmo que o objeto estético seja cômico e que seja exposto, também, de modo cômico, ainda assim pode ocorrer de a comicidade não provocar o riso em um apreciador. Isso ocorre, por exemplo, quando algum aspecto envolvido na comicidade crie algum tipo de constrangimento para com o apreciador. Piadas com temas socialmente tabús, por exemplo, podem ter graça para algumas pessoas e serem muito ofensivas para outras. Em uma sociedade democrática, tudo pode ser falado, livremente. Mas, evidentemente, nem tudo o que é formalmente cômico pode acarretar o riso.

Definição

Como já dissemos antes, o objeto cômico se funda sobre a previsibilidade da vida. Grande parte de nossa existência cotidiana se reduz a lidar com uma série de rotinas e hábitos. Há uma habitual seqüência de comportamentos, os quais são repetidos diariamente. É uma rotina muito bem estabelecida, conhecida por todos e que funda a nossa vida social.

Assim são os modos como nos alimentamos, onde vivemos, o que compramos, como amamos etc. Toda a cultura é um conjunto limitado de conhecimentos e descrições de vivências e, por isso, uma fonte inesgotável para a ruptura cômica.

Se tivéssemos de escolher um ponto de partida lingüístico para o cômico, este seria o argumento condicional, isto é, o argumento que é baseado na estrutura lógica "se p, então q". É um silogismo que vincula dois eventos quaisquer entre si, denotando uma conseqüência causal entre ambos. Em outras palavras, sabemos, por experiência prévia, que o evento q causa o evento p, portanto, quando observo a presença de p, sei que q o causou. Em um exemplo:

(1) "se há fumaça, então há fogo"

O cômico surgiria com a substituição do polo conseqüente do argumento (o q) por algo inesperado e, assim, destruindo a verdade do argumento condicional, permitiria a emergência do humor. Em um exemplo:

(2) "se há fumaça, então queimou a marmita"

A frase nº 1, acima, é a solução previsível e esperada pela nossa experiência prévia. Já a frase nº 2, ao contrário, embora também factível, traz um elemento de imprevisibilidade que dá uma certa graça para o contexto.

O cômico, então, é a quebra da expectativa que é criada pela nossa experiência anterior. Esperamos que algo ocorra, habitualmente, e o cômico nos apresenta uma coisa totalmente diversa, surpreendendo-nos.

Um exemplo desta quebra com a previsibilidade dos hábitos é esta piada sobre Sherlock Holmes:

Sherlock Holmes e o dr. Watson vão acampar.
Após um bom jantar e uma garrafa de vinho, entram nos sacos de dormir e caem no sono.
Algumas horas depois, Holmes acorda e sacode o amigo.
-"Watson, olhe para o céu estrelado. O que você deduz disso?".
Depois de ponderar um pouco, Watson diz:
"Bem, astronomicamente, estimo que existam milhões de galáxias e potencialmente bilhões de planetas. Astrologicamente, posso dizer que Saturno está em Câncer. Teologicamente, eu creio que Deus e o universo são infinitos. Também dá para supor, pela posição das estrelas, que são cerca de 3h15 da madrugada... O que você me diz, Holmes?".
Sherlock responde: "Elementar, meu caro Watson. Roubaram a nossa barraca!"

fonte: Wikipedia

Ora, a experiência precedente que o dr. Watson tem, em sua amizade com Sherlock Holmes, levou-o a conjecturar uma série de possibilidades racionais que, ele esperava, pudessem responder ao questionamento do famoso detetive. Entretanto, a graça da piada está em que o real motivo para que ambos vissem o céu estrelado é o mais prosaico e inesperado possível, uma ruptura cômica.

Ampliando um pouco mais nossa definição inicial, abaixo vemos outros exemplos de situações onde podem ocorrer as rupturas cômicas:

  1. incompatibilidade entre as metas perseguidas e os meios postos em prática para obtê-las
  2. contraste entre a essência de um acontecimento e a sua forma de manifestação
  3. contradição entre o vivo e o mecânico (Bergson)
  4. contradição entre o valor real de algo e aquilo que pretende valer (pretensão)
  5. o que parece nobre e revela-se vulgar
  6. o que parece rico e revela-se pobre
  7. o que parece pleno e revela-se vazio
  8. o que parece elevado e revela-se mesquinho
  9. inadequação entre um personagem e sua forma de manifestação
  10. contraste entre a ocorrência esperada de um ritmo e a sua ausência ou substituição

Alguns exemplos de contrastes cômicos

O coiote
No desenho animado "Papa-léguas" o coiote  usa das mais esdrúxulas e inventivas geringonças com o intuito de capturar o veloz papaléguas, sem sucesso.
Este é um exemplo de contraste cômico entre as metas perseguidas e os meios postos em prática para obtê-las.
"Road Runner", animação de 1949.
Chuck Jones, criador.
Warner Bros., distribuidora.
fonte: Wikipedia.
Marshmallow Man
O monstro-vilão final do filme "Ghostbusters", que seria, segundo o roteiro, a entidade maligna mais poderosa de todas, surge como um gigantesco homem de marshmallow "Stay Puft". Este é um exemplo de contraste cômico entre a essência de um acontecimento e a sua forma de manifestação.
"Ghostbusters", filme 1984
Ivan Reitman, diretor
Columbia Pictures, distribuidora.
fonte: Wikipedia.
Cena do filme Tempos Modernos
No filme "Tempos modernos", de Chaplin, o personagem principal, operário em uma fábrica, tem uma crise nervosa ao trabalhar em uma indústria altamente mecanizada.
Este é um exemplo do contraste cômico entre o que é vivo, humano, e o que é mecânico.
"Tempos modernos", "Modern Times", 1936.
Charlie Chaplin, ator e diretor.
United Artists, distribuidora.
fonte: Wikipedia.
Capa do livro O santo e a porca
A peça teatral "O santo e a porca", de Ariano Suassuna, entre várias peripécias, fala sobre uma porca de madeira, onde o personagem Euricão guarda uma "fortuna" em dinheiro. Ao final da encenação, descobre-se que o dinheiro guardado por muito tempo não valia mais nada.
Este é um exemplo de contraste cômico onde o que parece rico (a porca), na verdade é pobre.
Na ilustração acima, capa do livro editado pela José Olympio.
fonte: Wikipedia.

O cômico surge quando a personalidade mais importante do ocidente tem uma atitude totalmente inesperada: Bill Clinton, ex-presidente dos EUA, curva-se para apanhar papéis que haviam sido soprados pelo vento durante coletiva nos jardins do Palácio do Planalto, em Brasília.
Aqui, vemos a contradição cômica entre a importância de um personagem e a sua manifestação, incompatíveis.
Na foto, ao lado do presidente Fernando Henrique Cardoso, em visita oficial ao Brasil em 1997.
O gordo e o magro
A surpresa do evento cria a ruptura cômica.
Seqüência do filme "A honestidade vence", (Fun on the run), 1934.
"O gordo e o magro" (Oliver Hardy and Stan Laurel).
fontes: Youtube e Wikipedia.

Relação com outros conceitos estéticos

O conceito de cômico, assim definido, nos conduz a um corolário estético significativo.

Em primeiro lugar, por seu caráter de surpresa e incoerência, o cômico se aproxima de outros conceitos estéticos, tais como os conceitos de admiração e de estranhamento.

O objeto admirável, por exemplo, é o objeto que supera nossos hábitos interpretativos cotidianos, causando-nos surpresa e atração. Entretanto, não há, no sentimento de admiração, necessariamente, a simultaneidade do sentimento do humor. Isto é, nem sempre achamos graça naquilo que admiramos.

Menos ainda o cômico interfere com o sentimento do estranhamento. O objeto estranho também nos causa surpresa, porém provocando-nos repulsa. Aliás, a presença do cômico, por ser um sentimento simpático, inibiria o sentimento do estranhamento. Ambos são antagônicos.

Por outro lado, ao nos fazer rir, o objeto cômico, de certa maneira, nos alivia as tensões emocionais. Isto é, o riso descarrega-nos as tensões psicológicas. Como afirma o senso comum, "rir é o melhor remédio". Sendo assim, o cômico pode ser um dos objetos responsáveis pela ocorrência da catarse.

O cômico provoca, simultaneamente ao riso, um sentimento simpático em seu apreciador. O relaxamento provocado pelo riso reduz nosso senso crítico em relação ao objeto cômico.

Ironia

A ironia define-se por se dizer o contrário do que as palavras significam.

Digo algo, mas pretendo dizer o oposto. Ao fazer isso, muitas vezes ridicularizo ou zombo de algo ou de alguém. Assim, o discurso irônico é, muitas vezes, um discurso cômico.

"Tua comida está ótima! Só queimou um pouquinho..."

A graça reside na percepção de uma contradição entre o início da frase irônica e a sua conclusão ou, de um modo mais sutil, entre o significado daquilo que é dito em relação à entonação de voz com que é dito.

Sendo assim, a ironia revela um aspecto antipático do cômico. Quando ironizo algo, ou alguém, crio um distanciamento em relação àquilo que é ironizado. A ironia é uma forma social de apartar o que é risível, daqueles que riem. Os que riem formam um conjunto e o que é ironizado é distanciado deste conjunto.

Sátira

A sátira é um gênero literário cômico que tem por objetivo ridicularizar uma situação ou alguém. Normalmente, é empregada com finalidades críticas, isto é, com o objetivo de atacar, através do humor, um determinado valor político, cultural ou social.

Assim, a sátira é corrosiva. Pode ocorrer, inclusive, de a sátira, em seu afã destrutivo, não ser exclusivamente cômica.

Charles Darwin como um macaco
"Um venerável orangotango", 1871
Caricatura satírica de Darwin, caracterizado como um macaco.
Autor desconhecido.
Publicado originalmente na revista The Hornet, inglesa.
Imagem: University College London Digital Collections.
fonte: Wikipedia.
Licença de uso: domínio público.
Brueghel
Jan Brueghel, o velho, "Cego conduzindo outros cegos", c. 1590, óleo sobre tela, 118 x 168 cm.
Sátira que ridiculariza aqueles que se deixam guiar por outros que não são melhores que si.
Museu do Louvre, Paris.
fonte: Wikipedia.
Licença de uso: domínio público.

Paródia

A paródia é uma cópia cômica de um objeto cultural prexistente. Este objeto pode ser, inclusive, um objeto da cultura sem qualquer senso de humor.

A paródia ironiza o objeto original, imitando-o, de modo deturpado. Entretanto, não há na paródia, necessariamente, o aspecto corrosivo e antipático associados à ironia ou à sátira.

O contraste cômico se dá entre a expectativa de quem conhece a obra original e a surpresa de ver uma alteração cômica deste original. Assim, para que a paródia possa ser eficaz, é necessário que se conheça a obra original.

Cartaz do filme
Cartaz do filme "Mônica e Cebolinha no mundo de Romeu e Julieta", 1978.
Os personagens das estórias em quadrinhos parodiam a tragédia de Sheakespeare.
Maurício de Souza, criador e diretor.
fonte: FilmoW.com.
Clichetes, de Philadelpho Menezes
"Clichetes", poesia visual de Philadelpho Menezes que parodia a caixa da tradicional marca de chicletes.
fonte: Wikipedia.

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