Relação entre estética e biologia

© Texto de João Werner


Os comportamentos alimentares e reprodutivos dos animais guardam muitas semelhanças com os comportamentos humanos que chamamos estéticos. Por exemplo, algumas escolhas alimentares feitas por pássaros baseiam-se nas cores dos alimentos.

Cuidadosamente eles evitam lagartas nas cores amarelo e preto, por exemplo, pois sabem que elas tem gosto desagradável, ou, mesmo, que são venenosas.

Na área reprodutiva, a natureza elaborou intrincados e sofisticados rituais de acasalamento em muitas espécies. Nomeada de evolução sexual por Darwin, o acasalamento é baseado na escolha das fêmeas sobre os inúmeros pretendentes.

Ao contrário da evolução natural, baseada no predomínio dos machos mais fortes ou habilidosos, a evolução sexual baseia-se em cantos, plumagens sofisticadas, danças e construção de ninhos, os quais são parte de um repertório sedutor.

Milênios de cultura nos afastaram de nossas raizes instintivas, mas não conseguiram, ainda, apagar os traços animais que residem no fundo de nossa psique. Embora não possamos traçar uma linha de evidências direta entre os comportamentos animais e a nossa apreciação estética, entretanto, podemos encontrar paralelos entre certos aspectos da vida biológica e o que chamamos de estética.

Comportamento técnico alimentar

O comportamento técnico alimentar é a garantia da sobrevivência do indivíduo. A nutrição pode abrigar uma predisposição à apreciação estética quando é passível de escolha, isto é, quando o ser vivo pode escolher o que comer. Isto implica que há a necessidade, para ocorrência da apreciação alimentar, de fartura, isto é, uma maior variedade e quantidade de alimentos à disposição dos seres vivos.

Alimentos escassos, come-se o que se tem, independentemente do sabor.

Além da possibilidade da degustação, a biologia de alguns animais evoluiu para apresentar algumas cores de advertência. Estas cores indicam, aos predadores, que o animal em questão é venenoso, ou de gosto ruim. Em animais, combinações de cores tais como amarelo-preto ou vermelho-preto (ou conjuntos vibrantes de cores) indicam que estes animais são venenosos. Esta característica visual de alguns animais é denominada de aposematismo.

Abaixo, vemos um exemplar da salamandra-de-fogo, espécie cuja pele excreta uma substância altamente tóxica. Suas cores indicam, aos prováveis predadores, esta condição.

salamandra de fogo
Salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra), espécie venenosa, presente na Europa e norte da África.
fotógrafo: Didier Descouens.
fonte: Wikipedia.
Licença de uso: CC BY-SA 4.0

O comportamento técnico alimentar, conforme descrito acima, nos conduz à definição de um par de conceitos originários da estética.

Em primeiro lugar, como vimos, há a repulsa às presas de gosto amargo, ou venenosas. Este comportamento define-se pela rejeição, ou evitação, do alimento que se apresenta com determinadas combinações de cores, por exemplo.

Em segundo lugar, quando há uma variedade de escolhas alimentares, pode ocorrer a atração por este ou aquele alimento. A atração se define pela tendência ao consumo repetitivo do mesmo estímulo. Me sinto atraido quando busco repetir a experiência que me agrada.

Ambos estes conceitos ocorrem, primeiro, na percepção e, depois, em um comportamento de aproximação ou distanciamento.

Diferentes tipos de açúcares
Diferentes tipos de açúcares
fotografia de Romain Behar
fonte: Wikipedia.
licença de uso: domínio público

Séculos de elaboração cultural humana sobre este par de conceitos levou à produção de inúmeras apreciações estéticas. Podemos citar, como exemplos de atração, tanto o uso do sal quanto o uso do açúcar na culinária. Ambos estes ingredientes tem uma longa história de uso pelo ser humano, com uma apreciação tão intensa e dedicada que motivou guerras e conflitos através da história. Para mais detalhes sobre uma história do uso do açúcar, veja este artigo da Wikipedia e, para o sal, este outro da revista SuperInteressante..

O consumo do sal (cloreto de sódio), ainda se justifica funcionalmente, pois ele é um componente necessário à nossa fisiologia. Justifica-se, também, por ser um excelente conservante de alimentos, bactericida. Já o uso do açúcar, ao contrário, é totalmente dependente de nosso paladar. Guerreamos e matamos, escravizamos e traficamos, na história, pelo açúcar, apenas porque é uma substância que nos dá prazer.

A história do uso do açúcar é uma clara e inequívoca demonstração de todo o poder social e cultural que a atração estética pode exercer.

Existem inúmeros outros exemplos assim, tal como o uso das, assim chamadas, especiarias, condimentos cuja atração levou o mundo a ser circunavegado pela primeira vez e, segundo reza a lenda, ao descobrimento do Brasil.

Comportamento técnico para a reprodução

O comportamento técnico social para a reprodução é a garantia da sobrevivência das espécies.

Darwin, em seu livro "A origem das espécies", descreveu a seleção natural, na qual sobrevivem as espécies (ou indivíduos) mais aptos. Os machos mais fortes, por exemplo, arrebanham um harém de fêmeas e com elas procriam - tal como ocorre com os leões ou os elefantes marinhos - transferindo os seus próprios genes para a descendência.

Na seleção sexual, ao contrário, Darwin mostrou que a seleção é realizada pelas fêmeas das espécies. Elas escolhem, dentro de um grupo de machos, aquele com o qual vai procriar. A seleção da fêmea é realizada mediante a escolha de determinadas características dos machos, tais como certas plumagens, cantos ou danças.

O pavão talvez seja o exemplo mais conhecido de animal cuja reprodução é determinada pela seleção sexual. As fêmeas optam pela plumagem mais atrante, de seu ponto de vista.

Mas existem muitas outras espécies com rituais de acasalamento mais bizarros. O pássaro-cetim (Ptilonorhynchus violaceus), por exemplo, constrói elaborados ninhos e depois decora-os, preferencialmente com objetos coloridos, tudo para seduzir a fêmea (ver na Wikipedia). Já a andorinha-do-mar (Sterna paradisaea) "conquista" a fêmea ao presentear-lhe com um peixe que leva no bico. O sabiá (Turdus rufiventris) canta, e o galo-da-pradaria (Tympanuchus cupido) elabora uma sofisticada dança.

Pássaro-cetim decorando seu ninho
Pássaro-cetim decorando seu ninho. A fêmea da ave-cetim só se acasala com o macho quando o ninho construído por este está "satisfatoriamente" decorado.
fotógrafo: Summ
fonte: Wikipedia.
licença de uso: CC BY-SA 3.0.
Andorinha-do-mar
A andorinha-do-mar "flertando", com um peixe ao bico.
Fotógrafos: Toivo Toivanen & Tiina Toppila.
fonte: Wikipedia.
Licença de uso: domínio público.

Dança de acasalamento do galo-da-pradaria.
Canal: The Nature Box
fonte: Youtube.

Novamente, não podemos afirmar que exista uma clara linha de evidências que conecte, inequivocamente, os comportamentos técnicos para a reprodução e a estética. Entretanto, as evidências mostradas acima (e milhares de outras, diga-se) mostram-nos como os comportamentos aos quais denominados de estéticos são, em grande parte, similares à comportamentos animais.

Evidentemente, a própria noção de cultura implica em uma alteração nos comportamentos instintivos. Isto é, toda cultura elabora o instinto, às vezes aperfeiçoando-o ou, às vezes, inibindo-o. Por exemplo, a ideia de um homem ser possuidor de um harém de mulheres (como um elefante-marinho, por exemplo) é odiosa para muitas culturas no mundo mas, não o é para outras. Isso significa que algumas culturas inibiram este comportamento primitivo, outras não.

Do mesmo modo, as culturas elaboram nossos comportamentos técnicos alimentares e de reprodução.

Na alimentação, a elaboração cultural é mais evidente, pois o que chamamos de gastronomia exemplifica perfeitamente estes mecanismos culturais. Um cardápio de restaurante é, ao fim, um resumo escrito de milênios de tentativas, de acertos e erros em combinar alimentos, temperos, tempos de cozimentos etc.

Prova desta elaboração é o fato de que, para nossa cultura, por exemplo, comer a carne bovina é aceitável e corriqueiro. Já para a cultura hindú, comer a carne bovina é uma blasfêmia, inaceitável. Ou, por outro lado, em outro exemplo, insetos não fazem parte de nosso cardápio cotidiano mas, para muitas culturas orientais, sim.

Já o comportamento técnico para a reprodução encontrou uma inusitada (e poderosa) elaboração pela cultura contemporânea.

Os cantos, as danças etc., que são utilizados para seduzir, isto é, possibilitar o acasalamento entre os animais, foram elaborados, assimilados por nossa cultura - pela indústria cultural, mais especificamente - e exemplarmente personificados na figura do ídolo.

Um ídolo, seja ele masculino ou feminino, encarna os atributos humanos pelos quais nos sentimos atraídos, quase que instintivamente. A histeria e a comoção vistas em um show de um ídolo só são explicáveis pela instintiva atração que exercem sobre o imaginário popular.

Um ídolo seduz a audiência, e é a promessa, televisionada, da cópula imaginária. Para a imensa maioria, é claro, pois o ídolo "também" é humano, casa-se, etc.

Evidentemente, tudo isto não é ingênuo ou gratuito. Além da comercialização de milhares (quiçá, milhões) de discos, CDs, DVDs, Blu-Rays, o ídolo ajuda a movimentar, financeiramente, toda uma indústria.

Elvis Presley
"Elvis no palco no Auditório Municipal de Long Beach", USA, em junho de 1956.
Fotógrafo Cristi Dragomir e FECC / denom3910.
fonte: Scotty Moore.
Grupo musical É o Tchan
"Sheila Mello, vencedora do concurso da Loira do Tchan, dança enquanto é observada por Washington e Beto Jamaica, os cantores do conjunto musical É.O.Tchan. [FSP - TV.Folha-06.09.98]"
fotógrafo: Alexandre Campbell
fonte: UOL.

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